Resumos Teoria Arq
0 Relatório
Resumos para Ecame de teoria da Arqueologia na Universidade de Coimbra
Recomendações relacionadas
Outras obras do autor
Esboço/Conteúdo
Ver mais
Passa-se de: Modo de identificação analogista para modo de identificação naturalista na Época Moderna
Arqueologia e modos de identificação
Descola (2005)
A ecologia das relações de Philippe Descola
(1948-)
(1948-)
Introduzida no livro Par-delà nature et culture
(2005)
(2005)
Na origem deste trabalho está o seu trabalho com os
Achuar, uma tribo amazónica do Equador.
Achuar, uma tribo amazónica do Equador.
Ao longo do seu trabalho aí, o autor apercebeu-se
que, tal como os Ojibwa, outras tribos da amazónia ou
os Nayaka, os Achuar estendiam as suas relações para
além dos coletivo humano, olhando de forma diferente
para aquilo a que, no contexto da nossa ontologia,
chamamos natureza.
que, tal como os Ojibwa, outras tribos da amazónia ou
os Nayaka, os Achuar estendiam as suas relações para
além dos coletivo humano, olhando de forma diferente
para aquilo a que, no contexto da nossa ontologia,
chamamos natureza.
Procedeu a um trabalho comparativo que visou
perceber a diversidade das formas que as sociedades
humanas têm de se relacionar entre os seus
elementos humanos e o resto dos existentes.
perceber a diversidade das formas que as sociedades
humanas têm de se relacionar entre os seus
elementos humanos e o resto dos existentes.
Descola admite como um universal humano a
distinção entre o que chama fisicalidade e
interioridade
distinção entre o que chama fisicalidade e
interioridade
Fisicalidade:
“a forma exterior, a substância os
processos psicológicos, perceptivos
e sensório-motores, até mesmo
com o temperamento e forma de
agir no mundo".
processos psicológicos, perceptivos
e sensório-motores, até mesmo
com o temperamento e forma de
agir no mundo".
Interioridade:
“uma gama de propriedades
reconhecidas por todos os
humanos, recobrindo em parte
aquilo que chamamos usualmente
espírito, alma ou consciência”
reconhecidas por todos os
humanos, recobrindo em parte
aquilo que chamamos usualmente
espírito, alma ou consciência”
Segundo Decola:
Todas as ontologias conhecidas correspondem a
manifestações institucionalizadas destes quatro
modos de identificação, sendo dominadas por um
deles, podendo os restantes também estar presentes
manifestações institucionalizadas destes quatro
modos de identificação, sendo dominadas por um
deles, podendo os restantes também estar presentes
Os diferentes modos originam diferentes formas de
coletivos e diferentes problemas epistemológicos,
promovendo determinados tipos de relação e
dificultando a emergência de outros.
coletivos e diferentes problemas epistemológicos,
promovendo determinados tipos de relação e
dificultando a emergência de outros.
A Dwelling perspective de Tim Ingold (1948-)
Introduzida no livro The perception of the
environment (2000)
environment (2000)
Baseada nas ideias expressas por Heidegger no seu
artigo “Building, dwelling, thinking” (1971)
artigo “Building, dwelling, thinking” (1971)
Nesse artigo, através do estudo genealógico da palavra
alemã bauen, Heidegger demonstra que esta denotava:
alemã bauen, Heidegger demonstra que esta denotava:
• Construir
• Viver
• Cuidar, preservar, cultivar
• Viver
• Cuidar, preservar, cultivar
““Only if we are capable of dwelling, only then can we
build”
build”
Com o tempo as duas últimas denotações
autonomizaram-se. Mas construir já é viver/ habitar aí.
autonomizaram-se. Mas construir já é viver/ habitar aí.
A divisão natureza/ cultura é arbitrária. O ser humano,
como os restantes viventes apenas está no mundo,
relacionando-se, no processo, com os restantes
elementos que o compõem.
como os restantes viventes apenas está no mundo,
relacionando-se, no processo, com os restantes
elementos que o compõem.
Não existe divisão entre natureza e cultura, mas
apenas diferentes graus de relação das coisas com o
ser humano.
apenas diferentes graus de relação das coisas com o
ser humano.
O perspetivismo ameríndio de Eduardo Viveiros
de Castro (1951-)
de Castro (1951-)
Introduzido no artigo “Os pronomes
cosmológicos e o perspectivismo ameríndio”
(1996)
cosmológicos e o perspectivismo ameríndio”
(1996)
O autor identificou uma série de culturas onde, não
só a personalidade não se restringe aos humanos,
como a própria noção de pessoa seria a mesma para
cada um desses entes.
só a personalidade não se restringe aos humanos,
como a própria noção de pessoa seria a mesma para
cada um desses entes.
A forma como cada um deles se organiza seria
semelhante à dos humanos e veriam o mundo como
humanos.
semelhante à dos humanos e veriam o mundo como
humanos.
Assim, aquilo que cada um é depende de quem o vê
Por exemplo, o jaguar vê-se a si como humano, ao
humano como presa e ao espírito como espírito.
humano como presa e ao espírito como espírito.
Há uma distinção entre a espécie humana e a
condição humana.
condição humana.
A personalidade não é reconhecida em qualquer
espécie (ou objeto, ou abstração), mas apenas nas
que entram em relação com os humanos e entre si.
espécie (ou objeto, ou abstração), mas apenas nas
que entram em relação com os humanos e entre si.
Todos têm o mesmo interior, porque todos têm
uma mesma origem. Todos foram humanos antes da
“grande diferenciação”.
uma mesma origem. Todos foram humanos antes da
“grande diferenciação”.
Modo de Identificação do mundo:
Analogista
o mundo carateriza-se pela extrema diversidade dos seus componentes (não existem dois entes que partilhem a mesma interioridade ou fisicalidade).
Cada indivíduo é apenas mais uma peça numa cadeia, podendo ela própria ser um outro
elemento de uma supracadeia. O Mundo mantém-se coeso porque frenten a esta hiperdiversidade, tudo se relaciona entre si.
elemento de uma supracadeia. O Mundo mantém-se coeso porque frenten a esta hiperdiversidade, tudo se relaciona entre si.
As imagens denunciam o profundo espartilhamento
do mundo e a sua organização em cadeias analógicas
profundamente hierarquizadas.
Totemista
o mundo carateriza-se
pela existência de coletivos compostos por humanos
e não humanos que partilham a mesma substância
(interioridade e fisicalidade).
pela existência de coletivos compostos por humanos
e não humanos que partilham a mesma substância
(interioridade e fisicalidade).
Cada comunidade representa uma tribo, logo as relações estabelecem-se a um nível inter-tribal coletivo peixe sempre teve uma aliança com coletivo kanguru, logo irão continuar a manter essa aliança em nome do seu símbolo tribal
As imagens totémicas tendem ao “hieratismo”, uma
vez que representam algo atemporal. Nota-se, por
vezes, um claro contraste entre o hieratismo dos
animais e o dinamismo das figuras antropomórficas.
vez que representam algo atemporal. Nota-se, por
vezes, um claro contraste entre o hieratismo dos
animais e o dinamismo das figuras antropomórficas.
Animista
Os coletivos distinguem-se pela forma. Humanos e não humanos organizam-se de forma semelhante, apenas se
“vestindo” de forma diferente. Estes coletivos são autossuficientes mas a sua copresença no Mundo animista obriga-os a uma permanente negociação.
“vestindo” de forma diferente. Estes coletivos são autossuficientes mas a sua copresença no Mundo animista obriga-os a uma permanente negociação.
A imagens devem refletir a importância da “aparência”
dos coletivos, assim como a capacidade destes se
poderem transformar.
dos coletivos, assim como a capacidade destes se
poderem transformar.
As composições podem tender a ser narrativas nas
quais cada um dos coletivos está bem identificado
quais cada um dos coletivos está bem identificado
Naturalista
O mundo carateriza-se pela universalidade das leis naturais e pela diversidade cultural.
O ser humano distingue-se do resto do mundo porque ele apenas é dotado de cultura. Entre si também se dsitingue por existirem diversas culturas.
As imagens denunciam, por um lado, a universalidade
das coisas materiais do mundo, e, por outro, a
centralidade dos humanos nesse mesmo mundo.
das coisas materiais do mundo, e, por outro, a
centralidade dos humanos nesse mesmo mundo.
A viragem ontológica e a Arqueologia
Segundo Benjamin Alberti (2016), duas abordagens são
possíveis:
possíveis:
A “Arqueologia das ontologias sociais”
trata-se, sucintamente, da identificação de
ontologias passadas a partir dos dados arqueológicos.
ontologias passadas a partir dos dados arqueológicos.
A “Ontologia crítica”
que invoca contributos de outras ontologias, designadamente o
animismo como fonte de teoria.
animismo como fonte de teoria.
Côa
• 61 sitios com arte rupestre
• 4 sitios com arte mueble
• c. 660 painéis
• 126 peças de arte móvel
• 4 sitios com arte mueble
• c. 660 painéis
• 126 peças de arte móvel
Análise de correspondências múltiplas +
Classificação hierárquica ascendente
Classificação hierárquica ascendente
Cavalo
Côa: 95
Siega Verde: 43
Domingo García: 10
Sabor: 2
Ocreza: 1
Mazouco: 1
Zêzere: 1
La Griega: 5
Ojo Guareña: 3
Fariseu: 1
Villalba: 5
Vau: 4
Estebanvella: 1
TOTAL: 175
Siega Verde: 43
Domingo García: 10
Sabor: 2
Ocreza: 1
Mazouco: 1
Zêzere: 1
La Griega: 5
Ojo Guareña: 3
Fariseu: 1
Villalba: 5
Vau: 4
Estebanvella: 1
TOTAL: 175
Auroque
Côa: 134
Siega Verde: 11
Redor do Porco: 1
Domingo García: 3
Sabor: 4
Ojo Guareña: 1
Fariseu: 6
TOTAL: 160
Siega Verde: 11
Redor do Porco: 1
Domingo García: 3
Sabor: 4
Ojo Guareña: 1
Fariseu: 6
TOTAL: 160
Boi/Baca
Côa: 122
Siega Verde: 4
Domingo García: 6
Penches: 3
Ojo Guareña: 1
Fariseu: 1
Villalba: 5
Medal: 1
TOTAL: 132
Siega Verde: 4
Domingo García: 6
Penches: 3
Ojo Guareña: 1
Fariseu: 1
Villalba: 5
Medal: 1
TOTAL: 132
Biado
Côa: 77
Siega Verde: 7
Domingo García: 3
La Griega: 3
Ojo Guareña: 4
Fariseu: 2
TOTAL: 96
Siega Verde: 7
Domingo García: 3
La Griega: 3
Ojo Guareña: 4
Fariseu: 2
TOTAL: 96
Cabra
Côa: 51
Siega Verde: 3
Domingo García: 2
Sabor: 1
Zêzere: 1
La Griega: 1
Fariseu: 10
TOTAL: 69
Siega Verde: 3
Domingo García: 2
Sabor: 1
Zêzere: 1
La Griega: 1
Fariseu: 10
TOTAL: 69
Fases
Fases 1 a 3
Totemismo
Fase 1
• A temática do Côa reflete a da região.
• No Vale do Côa a diversidade temática e estilística é maior que em qualquer sítio da região.
• Existem temas que só se representam no Côa, por vezes com
grande impacto visual.
• Temas não representados no Côa não estão representados em
nenhum sítio da região
• No Vale do Côa a diversidade temática e estilística é maior que em qualquer sítio da região.
• Existem temas que só se representam no Côa, por vezes com
grande impacto visual.
• Temas não representados no Côa não estão representados em
nenhum sítio da região
• O equilíbrio temático do Côa não se encontra em
mais nenhum sítio da região.
• As tendências associativas entre temas do Côa
opõem-se às dos restantes sítios da região.
mais nenhum sítio da região.
• As tendências associativas entre temas do Côa
opõem-se às dos restantes sítios da região.
Fase 2 e 3
• A temática do Côa reflete a da região.
• No Vale do Côa a diversidade temática e estilística é maior que em qualquer sítio da região. •Ainda existem temas que só se representam no Côa mas já não é tão evidente. •Já se representam temas na região que não se encontram no Côa
• No Vale do Côa a diversidade temática e estilística é maior que em qualquer sítio da região. •Ainda existem temas que só se representam no Côa mas já não é tão evidente. •Já se representam temas na região que não se encontram no Côa
Fase 4?
Animismo?
Porque se opõem as tendências associativas do Côa às da restante
região? Hipótese explicativa
região? Hipótese explicativa
Se um homem X se casa com uma mulher Y os filhos serão Z
cavalo - cabra-montês - auroque
veado - auroque - cabra-montês
auroque - veado - cavalo
cabra-montês - cavalo - veado
cavalo - cabra-montês - auroque
veado - auroque - cabra-montês
auroque - veado - cavalo
cabra-montês - cavalo - veado
A confirmação da grande
antiguidade da humanidade
antiguidade da humanidade
Numa região do mundo onde a ocupação humana só arranca nos inícios do Holoceno, não se colocam determinados problemas que em outras regiões se vão verificar... Mas em 1828
Paul Tournal (1805-1872) publica os seus achados da gruta de Bize, na qual ossos humanos aparecem a par de animais extintos...
Problema
Se a Bíblia refere que todos os animais se safaram durante o dilúvio (havia um casal de cada espécie na arca de Noé), qualquer animal extinto teria que ser necessariamente anterior à criação da humanidade. De outra forma, tal ficaria registado.
Uma hipótese era admitir diversas criações, tendo aparecido inclusivamente a ideia de uma espécie humana “pré-adâmica”.
A outra era negar, pura e simplesmente a contemporaneidade de animais extintos e humanos.
Já se haviam descoberto ossos humanos junto a animais, como:
Na gruta de Gaylenreuth (Alemanha), onde Johann Friedrich Esper encontrou em ossos humanos associados a utensílios e espécies desaparecidas (1774).
Na “Goat’s Hole” de Paviland, onde foi identificada a “red lady” por William Buckland, também associada a animais extintos.
Conheciam-se mesmo alguns achados de utensílios junto a espécies desaparecidas, como:
Em Londres em 1690, onde um biface em sílex foi encontrado junto aos ossos de
um proboscídeo
um proboscídeo
Em Hoxne (Inglaterra), onde um conjunto de bifaces e outros objetos foram
encontrados a 4 metros de profundidade e debaixo de camadas de clara origem
marinha
encontrados a 4 metros de profundidade e debaixo de camadas de clara origem
marinha
Na Kent’s Cave (País de Gales), onde John McEnery encontrou utensílios junto a ossos debaixo de uma placa de travertino.
Apesar disto:
a maior parte das referências a achados de humanos “antediluvianos” ao longo do século XVIII eram de animais, o que encorajava Cuvier a defender a inexistência de homens antediluvianos, pelo menos, nas terras atualmente emersas.
O paradigma catastrofista, de âmbito regional (Cuvier)
ou geral (Buckland) era ainda preponderante.
ou geral (Buckland) era ainda preponderante.
O paradigma era tão forte que o facto de se identificar em grutas e dólmenes o mesmo tipo de materiais, enquanto os ossos de animais desaparecidos só se identificavam nas grutas foi utilizado como argumento de prova da não contemporaneidade entre espécies extintas e humanos, uma vez que isto demonstraria a mistura de materiais nas grutas.
Contudo, os achados
multiplicam-se...
multiplicam-se...
Jules de Christol (1802-1861), no Gard (1829)... Philippe-Charles Schmerling (1791-1836), em
Liège e no Luxemburgo. Este acabará por demonstrar a contemporaneidade dos ossos edos utensílios e por valorizar a simplespresença destes (em osso e sílex) comoevidências da associação entre animais e humanos.
Liège e no Luxemburgo. Este acabará por demonstrar a contemporaneidade dos ossos edos utensílios e por valorizar a simplespresença destes (em osso e sílex) comoevidências da associação entre animais e humanos.
Tournal em 1833
Divide a história da Terra em:
• Período geológico antigo
• Período geológico moderno
✴ Período ante-histórico
✴ Período histórico
• Período geológico antigo
• Período geológico moderno
✴ Período ante-histórico
✴ Período histórico
Jacques Boucher de Perthes (1788-1868): Em 1832, encontra no vale do Somme, em Abbeville,vestígios humanos associados a animais extintos(mamutes e rinocerontes lanudos) e claramente debaixode níveis “diluviais”.
Começa por pensar que serão vestígios de um dilúvio
anterior ao dilúvio bíblico, de forma a explicar a
inexistência de registos bíblicos.
anterior ao dilúvio bíblico, de forma a explicar a
inexistência de registos bíblicos.
Marcel Jérôme Rigollot (1786-1854)
Descobre, em 1853, o mesmo tipo de associações em St.
Acheul.
Descobre, em 1853, o mesmo tipo de associações em St.
Acheul.
Charles Lyell (1797-1875)
Publica entre 1830 e 1833 os seus Principles of Geology, no qual confirma, com trabalhos de campo, o princípio do uniformitarismo e dá espessura temporal à História da Terra.
Boa recepção da obra de Lyell teve que ver com as novas condições sócioeconómicas de Inglaterra
Herbert Spencer (1820-1903)
Um bocado de Lamark (complexificação) e do papel da livre concorrência e eis que o evolucionismo é limpo das “associações subversivas” que assustavam a classe média(Trigger).
William Pengelly (1812-1894)
Escavações em Brixham Cave em 1858, patrocinadas pela
Royal Society e pela Geological Society e supervisionada
por uma comissão que incluía Lyell.
Royal Society e pela Geological Society e supervisionada
por uma comissão que incluía Lyell.
Encontrou Ferramentas associadas a animais extintos debaixo de
uma camada estalagmítica com 5 a 7 cm de espessura.
uma camada estalagmítica com 5 a 7 cm de espessura.
1859 - Pengelly, Lyell, Prestwich e outros visitam Abbeville e St. Acheul e confirmam observações de Boucher de Perthes e Rigollot
Charles Darwin (1809-1882)
Publica On the origines of species em 1859.
Declara uma rutura com o transformismo: de adaptação para sobrevivência do mais apto "Expressão de Spencer"
O reconhecimento dos primeiros fósseis de homininos
Édouard Lartet (1801-1871)
Publica,
Publica,
1860, os primeiros estudos em que confirma
a existência de ossos de animais extintos trabalhados
pelo Homem.
a existência de ossos de animais extintos trabalhados
pelo Homem.
Propõe a primeira periodização, baseada na sequência
dos animais.
dos animais.
1864 - Descoberta a lâmina de marfim de La Madeleine
John Lubbock (1834-1913)
1865 - propõe os termos Paleolítico e Neolítico.
Gabriel de Mortillet (1821-1898)
Propõe, em 1869, a primeira periodização do Paleolítico, que é refinada em 1872
Idade da pedra: Classificação por culturas
questão do Homem
do Terciário
do Terciário
origem da polémica está nuns achados, de 1867, do
abade Louis Bourgeois de umas supostas indústrias em
sílex em camadas terciárias de Tenhay, no Loir-et-Cher.
abade Louis Bourgeois de umas supostas indústrias em
sílex em camadas terciárias de Tenhay, no Loir-et-Cher.
Em 1872, Carlos Ribeiro apresenta os eólitos
portugueses no Congresso Internacional de Antropologia
e Arqueologia Pré-histórica de Bruxelas.
portugueses no Congresso Internacional de Antropologia
e Arqueologia Pré-histórica de Bruxelas.
A esta ideia adere uma parte importante dos
investigadores europeus, desde logo no Congresso de
Lisboa de 1880, por exemplo G. de Mortillet e É. de Cartailhac...
investigadores europeus, desde logo no Congresso de
Lisboa de 1880, por exemplo G. de Mortillet e É. de Cartailhac...
Isto ao mesmo tempo que não aceitam a cronologia da arte paleolítica de Altamira
O questionar dos objetos e materialidades
Surge 3º Obstáculo:
Confrontar as evidências materiais com
os relatos bíblicos.
os relatos bíblicos.
1: Como seriar os objetos? 2: Como garantir o rigor da relação cronológica das séries?
Johann Joachim Winkelmann (1717-1768):
A atribuição cronológica com base no estilo
primeiras escavações em Pompeia e o nascimento da Arqueologia Clássica:
William Hamilton, Campi Phlegraei: Observations on the Volcanoes of the Two Sicilies, 1776
E a Pré-história?
Primeiros Arqueólogos:
Sven Nilsson (1787-1883)
Foio primeiro a utilizar a expressão “préhistórico”
no sentido moderno,
no sentido moderno,
Utilizou etnografia como um grande quadro de
referência, designadamente para compreender
objetos compósitos.
referência, designadamente para compreender
objetos compósitos.
Este, sim, interessava-se pela subsistência. Em 1822
publica o primeiro relatório de arqueozoologia.
publica o primeiro relatório de arqueozoologia.
Mas havia sempre que confirmar com a Arqueologia
experimental.
experimental.
Relacionou pela primeira vez a evolução tecnológica
com a económica.
com a económica.
Propôs a progressão: caça-recoleção→ pastorícia→
agricultura, movida pela pressão demográfica
agricultura, movida pela pressão demográfica
Christian Jürgensen Thomsen (1788-1865)
Influenciado pela numismática e pelo método
estilístico utilizado para datar moedas ilegíveis.
estilístico utilizado para datar moedas ilegíveis.
Adopta o sistema das três idades como base.
E toma como unidades de referência temporal os
conjuntos de objetos de “achados fechados”.
conjuntos de objetos de “achados fechados”.
Segue-se uma divisão por tipos e por materiais e observa-se as coocorrências nos referidos achados
fechados, assim como as variações decorativas, tendo-se identificado cinco grupos de materiais.
fechados, assim como as variações decorativas, tendo-se identificado cinco grupos de materiais.
Por fim, carateriza-se os contextos e procede-se a uma seriação.
Escavou pouco, mas ainda assim publica em 1837 um
relatório que demonstra a construção de uma
mamoa da Idade do Bronze sobre uma da Idade da
Pedra.
relatório que demonstra a construção de uma
mamoa da Idade do Bronze sobre uma da Idade da
Pedra.
Interessou-se pela evolução dos ritos de
enterramento e pela tecnologia, mas pouco pela
subsistência.
enterramento e pela tecnologia, mas pouco pela
subsistência.
Johannes Japetus Steenstrup (1813-1907)
Ao estudar as turfeiras, identificou uma sequência paleoambiental que se caraterizava pela passagem de
uma floresta dominada pelo pinheiro a uma dominada pelo carvalho, seguindo-se uma última dominada pela faia e pelo ulmeiro. Relacionou estas fases com as Idades da Pedra, do Bronze e do Ferro de Thomsen.
uma floresta dominada pelo pinheiro a uma dominada pelo carvalho, seguindo-se uma última dominada pela faia e pelo ulmeiro. Relacionou estas fases com as Idades da Pedra, do Bronze e do Ferro de Thomsen.
Com calculava que cada fase duraria 2000 anos, foi o
primeiro a recuar tanto a cronologia da Pré-história
escandinava.
primeiro a recuar tanto a cronologia da Pré-história
escandinava.
Jens Worsaae (1821-1885)
Edward
Edward
Considerado o primeiro arqueólogo profissional, foi nomeado inspetor para a Conservação dos Monumentos Antigos em 1847 e o primeiro professor de Arqueologia da Universidade de Copenhaga (a partir de 1855).
Escavou muito e conseguiu confirmar e refinar a
proposta de Thomssen com evidências estratigráficas.
proposta de Thomssen com evidências estratigráficas.
Sintetizou os trabalhos de Thomsen com os de Nilsson, de Steenstrupp e os seus próprios, daí
resultando a primeira “Pré-história da Dinamarca” (Danmarks Oldtid, 1843).
resultando a primeira “Pré-história da Dinamarca” (Danmarks Oldtid, 1843).
O estudo dos concheiros dinamarqueses
Em 1848, a Real Academia Dinamarquesa das Ciências encarrega uma comissão liderada por Worsaae,
Steenstrup e Johan Georg Forchhammer, de estudar os concheiros.
Steenstrup e Johan Georg Forchhammer, de estudar os concheiros.
Em 1850, sai uma monografia em seis volumes, nos quais se destaca a confirmação da sua origem humana, os estudos palebotânicos e arqueozoológicos, de sazonalidade, ao nível do estudo da distribuição de estruturas e artefactos para identificar as atividades desenvolvidas no sítio e até ao nível da Arqueologia experimental.
Pós-Colonial
Idade da Pedra, Idade do Bronze
e Idade do Ferro
e Idade do Ferro
Paleolítico e Neolítico
A progressão sócio-económica
A progressão: caça-recoleção→ pastorícia→
agricultura, movida pela pressão demográfica
agricultura, movida pela pressão demográfica
Gabriel de Mortillet (1821-1898)
Propõe, em 1869, a primeira periodização do Paleolítico,
que é refinada em 1872
Propõe, em 1869, a primeira periodização do Paleolítico,
que é refinada em 1872
O Iluminismo
• O progresso cultural é uma caraterística
intrínseca da humanidade, designadamente o
seu controlo sobre a natureza;
• A diversidade era, geralmente, explicada pelo
ambiente.
• Mas nem sempre funcionava. Por exemplo, a
América do Norte está à mesma latitude da
Europa.
intrínseca da humanidade, designadamente o
seu controlo sobre a natureza;
• A diversidade era, geralmente, explicada pelo
ambiente.
• Mas nem sempre funcionava. Por exemplo, a
América do Norte está à mesma latitude da
Europa.
As guerras napoleónicas e o seu desenlace
Começou por ser apoiado nos países onde a
burguesia ainda não tinha conseguido as
exigências da Revolução Francesa.
As guerras napoleónicas e o seu desenlace
Pintura
burguesia ainda não tinha conseguido as
exigências da Revolução Francesa.
As guerras napoleónicas e o seu desenlace
Pintura
Após a sua derrota, dá-se um recrudescimeno
do nacionalismo nos vários países envolvidos.
do nacionalismo nos vários países envolvidos.
Johann Gottfried Herder (1744-1803)
A noção de Volkgeist. Cada povo é imbuído de
um espírito próprio que se reflete nas suas
criações, sobretudo na lingua, que Herder
acreditava condicionar a percepção e
interpretação do mundo.
um espírito próprio que se reflete nas suas
criações, sobretudo na lingua, que Herder
acreditava condicionar a percepção e
interpretação do mundo.
No entanto, para Herder, cada cultura tinha o
seu valor, o que o tornava igualmente um
opositor do imperialismo, no âmbito do qual
uma nação tentava dominar outra(s).
seu valor, o que o tornava igualmente um
opositor do imperialismo, no âmbito do qual
uma nação tentava dominar outra(s).
Joseph-Arthur, conde de Gobineau (1816-1882)
Subtema
O racismo “científico”: Essai sur l’inégalité des races humaines
(1853-1855)
(1853-1855)
As teorias poligenéticas
Baseiam-se em ideias que remontam ao século
XII, mas que são recuperadas de forma séria por
Isaac de La Peyrère (1594-1676).
XII, mas que são recuperadas de forma séria por
Isaac de La Peyrère (1594-1676).
Segundo este autor, Adão era apenas ancestral dos judeus, tendo Deus criado anteriormente outras humanidades em outros continentes (os préadamitas).
Diversos autores, a começar por Carolus Linnaeus (1707-1778), já repartiam as diversas comunidades humanas por diversas raças diferentes, não só ao nível do comportamento, como da biologia.
Charles White (1728-1813) propunha, em Account of the Regular Gradation in Man, and in Different Animals and Vegetables (1799), uma gradação de grupos humanos: Europeus, asiáticos, nativos americanos, negros africanos e “Hottentots”.
Gradação de Humanos
Samuel Morton (1799-1851)
Os estudos craniais levaram-no, numa primeirafase, a defender uma criação divina seguida de diferenciação e, numa segunda, a poligénese divina.
As ideias começam a difundir-se mesmo entre monogenistas
James Cowles Prichard (1786-1848), na primeira edição do Researchesinto the Physical History of Man (1813) defendia que a humanidade progredia através de um processo de autodomesticação e que ao longo deste processo, os humanos iam-se tornando cada vez mais como os europeus.
Darwin também acreditava na diversidade biológica humana em contrário a Alfred Wallace (1823-1913)
Oracismo tinha agora um respaldo “científico”
Isto associado ao nacionalismo romântico e ao crescimento da classe média
Isto associado ao nacionalismo romântico e ao crescimento da classe média
John Lubbock (1834-1913)
Pre-historic times, as illustrated by ancient remains and the manners and customs of modern savages.
daqui passa à descrição de
vários casos etnológicos
vários casos etnológicos
O link entre os casos arqueológicos e os etnológicos era a cultura material
Ou seja, segundo Lubbock, a seleção natural teria diferenciado a humanidade.
Os Inuit seriam o equivalente atual das sociedades do Paleolítico superior; os
concheiros dinamarqueses seriam iguais aos do Fogo…
concheiros dinamarqueses seriam iguais aos do Fogo…
E nenhuma comunidade tinha sido “tão selecionada” como a europeia.
Os
Os
falhou a apresentar paralelos claros para a maior parte dos casos,
diferenças entre as distintas humanidades, em grau e tipo, que se teriam diferenciado devido ao clima.
diferenças entre as distintas humanidades, em grau e tipo, que se teriam diferenciado devido ao clima.
Os efeitos desta seleção verificavam-se não só na cultura, como também numa putativa capacidade biológica de a utilizar.
Este aspeto, ligado ao facto das invenções não se terem dado por todo o lado ao mesmo tempo e pela mesma ordem, explicaria o insucesso das comparações.
Isto também se aplicava às classes sociais e às diferenças entre homens e mulheres.
Através da seleção natural, justificava-se o racismo, as diferenças de classe e de género.
Através da seleção natural, justificava-se o racismo, as diferenças de classe e de género.
Contrariamente a Rousseau,
Lubbock chamava a atenção para a fraca demografia destas populações e para a desgraça e depravação moral dos seus costumes, considerando-as sujas e com o intelecto de crianças.
Lubbock chamava a atenção para a fraca demografia destas populações e para a desgraça e depravação moral dos seus costumes, considerando-as sujas e com o intelecto de crianças.
O progresso era inevitável...
Mas o paraíso não era para todos. Os povos primitivos estavam condenados à extinção, não
havendo forma de compensar o que a seleção natural lhes tinha retirado e que lhes permitia
adaptar-se a uma vida complexa e mais ordeira.
havendo forma de compensar o que a seleção natural lhes tinha retirado e que lhes permitia
adaptar-se a uma vida complexa e mais ordeira.
O colonialismo e o genocídio
estavam assim justificados
estavam assim justificados
A morte devido a maus-tratos e às doenças
eram encaradas como evidências dessa não
adaptação.
eram encaradas como evidências dessa não
adaptação.
O darwinismo social legitimava a desigualdade
racial, de classe e de género por meio da sua
naturalização.
racial, de classe e de género por meio da sua
naturalização.
Se para o iluminismo, o progresso estava
acessível a todos, agora estava reservado aos
Europeus.
acessível a todos, agora estava reservado aos
Europeus.
O caso dos E.U.A
Incapacidade de mudança dos nativos americanos.
Todas as modificações tinham que vir de fora.
Não havia necessidade de estudar cronologias.
Começou a estudar-se a cultura material no espaço e
não no tempo
não no tempo
Como as áreas culturais coincidiam com zonas
ecológicas, o ambiente começou a ser tido em conta, não
como como causa da adaptação, mas como limite ao
progresso de que estas comunidades seriam incapazes.
ecológicas, o ambiente começou a ser tido em conta, não
como como causa da adaptação, mas como limite ao
progresso de que estas comunidades seriam incapazes.
O caso da África subsaariana
O exemplo do Grande Zimbabué
1. Ruínas começaram por ser identificadas com
construções do rei Salomão e da rainha de Sabá.
2. Depois foram entendidas como construções de povos
vindos da área mediterrânica.
3. Quando se provou que eram africanas, foram
desvalorizadas.
construções do rei Salomão e da rainha de Sabá.
2. Depois foram entendidas como construções de povos
vindos da área mediterrânica.
3. Quando se provou que eram africanas, foram
desvalorizadas.
Nada de novo podia ser subsaariano:
Os bronzes e terracotas da Nigéria testemunhavam a
existência de uma antiga colónia grega
existência de uma antiga colónia grega
A sequência paleolítica da África do Sul era a mesma da Europa, sendo os vestígios aí encontrados encarados como vestígios de culturas mais antigas que acabaram por aí se manter mais tempo.
Uma pintura de cor branca de um homem no
Brandeberg (Namíbia) é interpretada como uma “dama
branca” produzida por uma “raça mediterrânica”
Brandeberg (Namíbia) é interpretada como uma “dama
branca” produzida por uma “raça mediterrânica”
em 1880 fala numa raça Hamítica e uma
negra. A primeira era criativa mas tinha degenerado
devido à miscigenação com a última
negra. A primeira era criativa mas tinha degenerado
devido à miscigenação com a última
Isto durou até aos anos 60 e terá tido uma papel
fundamental na racialização das etnias do Ruanda e do
Burundi.
fundamental na racialização das etnias do Ruanda e do
Burundi.
O Caso do Colonialismo Português:
Segundo Poloni (2011), os estudos de Arqueologia só se mantiveram porque:
1 – Necessidade de interação com o panorama científico internacional;
2 – Intercâmbios com figuras importantes da Arqueologia nacional e internacional;
Arqueologia é utilizada como forma de avaliar o potencial de cada
comunidade nativa a partir do conhecimento do seu passado;
comunidade nativa a partir do conhecimento do seu passado;
Aproveita-se os percursos percorridos no âmbito do trabalho de
campo antropobiológico para se realizar reflexões arqueológicas de
acordo com o tempo e espaço disponíveis
campo antropobiológico para se realizar reflexões arqueológicas de
acordo com o tempo e espaço disponíveis
Histórico-culturalismo
Gustaf Oscar Montelius (1843-1921)
Visitou coleções por toda a Europa (1876-1879),
tornando-se o primeiro a estudar a Pré-história da
Europa à escala continental.
tornando-se o primeiro a estudar a Pré-história da
Europa à escala continental.
Refinou a seriação de Thomsen, mediante a aplicação
da comparação tipológica a toda a Europa
da comparação tipológica a toda a Europa
Definiu tipos com base nas variações de forma e
decoração, permitindo-lhe correlacionar diferentes
cronologias regionais.
decoração, permitindo-lhe correlacionar diferentes
cronologias regionais.
Definiu períodos mais curtos
No livro Die typologische methode: Die älteren
Kulturperioden im Orient und in Europa (1903) já propõe
quatro subdivisões do Neolítico, seis da Idade do
Bronze e dez da Idade do Ferro.
Kulturperioden im Orient und in Europa (1903) já propõe
quatro subdivisões do Neolítico, seis da Idade do
Bronze e dez da Idade do Ferro.
Embora aplicável a toda a Europa, apercebeu-se de
diversos ritmos.
diversos ritmos.
Inferiu tendências evolutivas em diversos tipos de
materiais.
materiais.
O aparecimento de achados em contextos pré-históricos
iguais aos que aparecem em contextos com escrita
(designadamente no Egipto) permitiu:
iguais aos que aparecem em contextos com escrita
(designadamente no Egipto) permitiu:
Seriar através de anos de calendário os materiais da Préhistória
mais recente da Europa;
mais recente da Europa;
Verificar a gradual transferência destes materiais de Este
para Oeste.
para Oeste.
Mas também admitiu desenvolvimentos não unilineares
Mas:
Negava criatividade humana;
Era compatível com a Bíblia;
Fazia do Ocidente o herdeiro do que se havia passado a
Oriente;
Justificava a colonização daqueles países.
Negava criatividade humana;
Era compatível com a Bíblia;
Fazia do Ocidente o herdeiro do que se havia passado a
Oriente;
Justificava a colonização daqueles países.
Edward B. Tylor (1832-1917)
Primitive culture (1871)
“that complex whole which includes knowledge, belief, art, morals, law, custom, and other capabilities and habits acquired by man as member of society”
Mas é na Alemanha que se vai
desenvolver a Arqueologia
Histórico-cultural
desenvolver a Arqueologia
Histórico-cultural
Rudolf Virchow (1821-1902)
Defendia a construção de uma antropologia préhistórica
com contributos da Arqueologia, da
Antopologia e da Etnologia;
com contributos da Arqueologia, da
Antopologia e da Etnologia;
Procurou identificar culturas, as suas origens e movimentos e, se possível, identificá-las com povos historicamente documentados, através de tipos cerâmicos, das formas de disposição dos mortos, dos sítios de habitat e da compulsão de fontes documentais.
Mas faltava sistematização.
Mas faltava sistematização.
Gustaf Kossinna (1858-1931)
Kossina acreditava que a cultura material era expressão
de uma etnia.
As continuidades ao nível da cultura material refletiriam,
assim, continuidades étnicas;
de uma etnia.
As continuidades ao nível da cultura material refletiriam,
assim, continuidades étnicas;
Assim, a partir do estudo da cultura material de povos
historicamente documentados, poder-se-ia recuar no
tempo.
historicamente documentados, poder-se-ia recuar no
tempo.
À medida que se recua no tempo, a precisão
diminui:
diminui:
A partir de determinado momento
deixa de ser possível distinguir tribos mas
apenas etnias mais vagas e, às tantas, apenas
se distinguiria entre indo-europeus e os
restantes grupos.
deixa de ser possível distinguir tribos mas
apenas etnias mais vagas e, às tantas, apenas
se distinguiria entre indo-europeus e os
restantes grupos.
Às etnias fazia corresponder raças, que
considerava, no seguimento de Klemm,
poderem distinguir-se entre Kulturvölker e
Naturvölker.
considerava, no seguimento de Klemm,
poderem distinguir-se entre Kulturvölker e
Naturvölker.
A ideia de mosaico cultural acabou por ter um impacto enorme, assim como um outro objetivo que ele propunha para a Arqueologia: documentar o modo de vidadestes povos e o que aconteceu com eles ao longo do tempo
O conceito de “cultura” começa a impor-se
Nos países latinos denota o cultivo das atividades do
espírito/ intelecto;
espírito/ intelecto;
Mas nos países germânicos, começa a denotar os
modos de de vida de um povo (Herder) e depois os
costumes entranhados de populações tribais e
camponesas.
modos de de vida de um povo (Herder) e depois os
costumes entranhados de populações tribais e
camponesas.
Gustav Klemm começa a utilizar o conceito neste
sentido nos Allgemeine Cultur-Geshichte der Menscheit
(1843-1852) e nos Allgemeine Kulturwissenschaft
(1854-1855), e onde defende a existência de
Kulturvölker e Naturvölker.
sentido nos Allgemeine Cultur-Geshichte der Menscheit
(1843-1852) e nos Allgemeine Kulturwissenschaft
(1854-1855), e onde defende a existência de
Kulturvölker e Naturvölker.
Pelos anos 20, Já vários autores falavam de diversas culturas europeias
Mas o primeiro a sistematizá-las foi Vere Gordon Childe (1893-1957)
Como Kossina, também chega à Arqueologia com o
intuito de identificar a origem dos Indo-europeus.
intuito de identificar a origem dos Indo-europeus.
Como Montelius, também visitou uma enorme quantidade
de sítios e museus.
de sítios e museus.
Expôs as suas bases teóricas em The Danube in Prehistory
(1929)
(1929)
Adopta o conceito de cultura arqueológica de Kossina,
identificando cada uma delas como vestígios de povos
específicos.
identificando cada uma delas como vestígios de povos
específicos.
Para Childe cada cultura tinha que ser definida temporal e
espacialmente com base na estratigrafia, na seriação e na
sincronia.
espacialmente com base na estratigrafia, na seriação e na
sincronia.
Considerava que os objetos utilitários eram fundamentais para a inferência da difusão, enquanto
decorações cerâmicas, rituais funerários ou ornamentos eram melhores para a identificação de
grupos étnicos.
decorações cerâmicas, rituais funerários ou ornamentos eram melhores para a identificação de
grupos étnicos.
Embora só alguns materiais servissem para ainferência de movimentos difusionistas ou identificação de culturas, todos eram importantes para a paleoetnologia destes povos, algo a que procedeu de formas mais sistemática que Kossinna.
Dando maior ênfase à difusão, admitiu que não era
possível identificar povos específicos.
possível identificar povos específicos.
Bem como a cronologia de Montelius e a sua proposta de
que tudo vinha do Oriente.
que tudo vinha do Oriente.
The Dawn of European Civilization (1925) acabou por servir de
modelo aos estudos realizados em toda a Europa até aos anos 1950.
modelo aos estudos realizados em toda a Europa até aos anos 1950.
O objetivo era a identificação de
culturas, as suas origens,
movimentos e interações.
culturas, as suas origens,
movimentos e interações.
Chegou inclusivamente ao
Paleolítico (e.g. Breuil, 1913;
Bordes, 1953).
Paleolítico (e.g. Breuil, 1913;
Bordes, 1953).
Arqueologia e os nacionalismos
Obviamente, numa Europa das Nações, este tipo de Arqueologia teve um papel importantíssimo, sobretudo nos tempos mais conturbados do século XIX e XX.
No caso ibérico, a arqueologia não foi muito utilizada
(e logo, financiada) porque as supostas “Idades do
Ouro foram as das descobertas”
(e logo, financiada) porque as supostas “Idades do
Ouro foram as das descobertas”
As primeiras alternativas ao
Histórico-Culturalismo
Histórico-Culturalismo
Partem do princípio que as culturas são sistemas de entidades
funcionalmente interligadas entre si.
funcionalmente interligadas entre si.
• Funcionalistas
O funcionalismo procura perceber como o sistema funciona
• Processualistas
o processualismo procura saber como e porque razão muda
Regionais:
Na Escandinávia
O sistema de Blytt-Sernander
Associa a sequência climática de Axel Blytt
(1843-1898) e de Rutger Sernander (1866-1944)
proposta a partir do estudo das turfeiras, com os
estudos palinológicos de Lennart von Post
(1884-1951).
(1843-1898) e de Rutger Sernander (1866-1944)
proposta a partir do estudo das turfeiras, com os
estudos palinológicos de Lennart von Post
(1884-1951).
Na Europa Central e de leste
A correlação, por Robert Gradman
(1865-1950), entre o loess e os
primeiros sítios neolíticos (1898).
(1865-1950), entre o loess e os
primeiros sítios neolíticos (1898).
Vários trabalhos deste tipo até aos
anos 20.
anos 20.
Exemplo: A teoria do oásis
Proposta por Raphael Pumpelly
(1837-1923) em 1908, no
seguimento das suas escavações
do Turquemenistão
(1837-1923) em 1908, no
seguimento das suas escavações
do Turquemenistão
Em Inglaterra
Influência de Edwin Guest (1800-1880), que falava da necessidade de relacionar a história da Inglaterra com a sua geografia e de Halford
John Mackinder (1861–1947), que defendia que a localização das nações relativamente umas às outras tinha um papel fundamental na sua
história política e económica.
John Mackinder (1861–1947), que defendia que a localização das nações relativamente umas às outras tinha um papel fundamental na sua
história política e económica.
Começaram a fazer-se vários trabalhos que abordaram a distribuição dos achados e a sua relação com a geografia.
A relação solos/ ferramentas
A importância da geografia na aceitação das inovações vindas
de fora.
de fora.
Entre outras...
A partir da I Guerra Mundial, começou a valorizar-se a fotografia aérea
Background teórico
O possibilismo de Paul Vidal de La Blache
(1845-1918)
(1845-1918)
O ambiente constrange a variedade de adaptações
possíveis.
possíveis.
A antropologia cultural
Bronislaw Malinowski (1884-1942) e Radcliffe-Brown (1881-1955)
Para Malinowski estas instituições respondiam a necessidades biológicas, interessando-se Radcliffe-Brown apenas pelo papel social que estas desempenhavam.
Os sistemas sociais são compostos por elementos
interdependentes.
interdependentes.
Importância do trabalho de campo prolongado, de forma a
estudar mais os comportamentos que as ideias.
estudar mais os comportamentos que as ideias.
Estes trabalhos eram muito influenciados:
Pelo Behaviorismo de J. B. Watson (1878-1958)
E sobretudo pela sociologia de Émile Durkheim
Para Durkheim as sociedades eram sistemas de
partes independentes que tendiam ao equilíbrio.
partes independentes que tendiam ao equilíbrio.
As relações sociais tinham uma dinâmica própria,
independente da economia.
independente da economia.
O estudo das sociedades simples era
recomendado porque teriam em germe as
caraterísticas básicas das complexas.
recomendado porque teriam em germe as
caraterísticas básicas das complexas.
Sociedades eram como um organismo. Mudanças
numa instituição verificar-se-iam nas restantes
numa instituição verificar-se-iam nas restantes
No entanto, as sociedades tendiam para a estase
Isto explica porque Malinowski ou Radcliffe Brown se “borrifavam” para o estudo evolutivo.Mais que tudo interessava-lhes a comparação entre sociedades de forma a produzir generalizações que explicassem a variedade atualmente existente.
Vere Gordon Childe (1893-1957) volta a denotar-se
The Most ancient East (1928)
The Bronze Age (1930)
New light on the most ancient East (1934)
The Bronze Age (1930)
New light on the most ancient East (1934)
E questiona-se:
Porque se aceitam algumas difusões e não outras?
A importância das instituições económicas.
Agricultura como turning point.
Teoria do oásis, apenas existindo 3 possibilidades (Nilo,
Crescente Fértil e Vale do Indo).
Crescente Fértil e Vale do Indo).
Evolução:
Grahame Clark (1907-1995)
Profundamente influenciado pela:
• Abordagem ecológica escandinava
• Antropologia Social
• Pelo repto de A. M. Tallgreen de que era necessário
olhar mais para as pessoas que para os artefactos.
olhar mais para as pessoas que para os artefactos.
Archaeology and Society (1939)
A Arqueologia tem como objetivo o estudo dos
modos de vida no passado.
modos de vida no passado.
• Absolutamente necessária a experiência de campo.
• Chamou a atenção para a preservação diferencial.
• Necessidade de escavar não só cemitérios, como
sítios.
sítios.
• Mais fácil chegar à economia que à organização
social e crenças religiosas.
social e crenças religiosas.
• O objetivo da Arqueologia era fazer uma história social, que passa pela identificação das culturas e perceber como funcionavam.
• Rejeitava o comparativismo etnográfico das culturas, admitindo só o de artefactos (era mais homologista que analogista).
Focou-se:
• Desenvolver técnicas para utilizar evidência
arqueológica para documentar a vida social.
arqueológica para documentar a vida social.
• NA importância dos recursos.
• Importância de estudar a sazonalidade.
Este modo de vida (cultura) resulta da necessidade
de sobrevivência da sociedade.
de sobrevivência da sociedade.
Esta é um sistema reduzível a várias partes
relacionadas entre si e profundamente condicionada
pelo ambiente.
relacionadas entre si e profundamente condicionada
pelo ambiente.
O projeto Star Carr
Clark tinha como objetivo recuperar materiais orgânicos e líticos, datar o sítio, relacionar a ocupação com o ambiente, identificar que tipo de grupo o ocupou e em que época do ano tal ocorreu.
Prehistoric Europe: The economic basis (1952)
Europa dividida em três zonas (Circumpolar, temperada e
mediterrânica).
mediterrânica).
estudou a evolução económica e a forma como o ambiente
condicionou os diversos percursos.
condicionou os diversos percursos.
o conceito de homeostase.
Arqueologia processualista
Estados Unidos
O trabalho de Harlan Smith (1872-1940)
Fez alguma escola, tendo-se fortalecido com
os grande trabalhos decorrentes do New
Deal.
os grande trabalhos decorrentes do New
Deal.
Walter Taylor (1913-1997)
A study of Archaeology (1948)
Críticas profundas à Arqueologia Histórico-cultural e aos
métodos de campo daí decorrentes.
métodos de campo daí decorrentes.
Não respondiam a questões básicas, como: o que
comiam, porque escolhiam determinados sítios ou de
onde vinham as matérias-primas.
comiam, porque escolhiam determinados sítios ou de
onde vinham as matérias-primas.
Necessidade de aprofundar o estudo da relação entre
estruturas e achados de um sítio.
estruturas e achados de um sítio.
Importância do ambiente, mas também dos relatos
etnográficos e da documentação histórica.
etnográficos e da documentação histórica.
Propôs a “abordagem conjuntiva”:
• Identificar a ocupação ou ocupações do sítio.
• Estudar os materiais por fases do sítio.
• Proceder à síntese etnográfica.
• Proceder à síntese histórica.
• Importância das homologias.
• Contextualizar o sítio na rede de povoamento.
• Estudar os materiais por fases do sítio.
• Proceder à síntese etnográfica.
• Proceder à síntese histórica.
• Importância das homologias.
• Contextualizar o sítio na rede de povoamento.
A Arqueologia ecológica e do
povoamento
povoamento
Julian Steward (1902-1972) e Frank M. Setzler (1902-1975)
“Function and configuration
in archaeology”, American
Antiquity, 4, 1938, 4-10
in archaeology”, American
Antiquity, 4, 1938, 4-10
Objetivo da Arqueologia (e da Antropologia)
Compreender a natureza das mudanças culturais, uma vez que estas disciplinas têm condições para desenvolverem uma análise ecológica do comportamento humano
devem estudar mudanças ao nível da:
• subsistência
• população
• padrões de povoamento
• subsistência
• população
• padrões de povoamento
Motivou múltiplos estudos
Iraq Jarmo project (1948-1955), dirigido por Robert
Braidwood (1907-2003).
Tehuacan Archaeological-Botanical project (1960-1968),
dirigido por Richard MacNeish (1918-2001).
Braidwood (1907-2003).
Tehuacan Archaeological-Botanical project (1960-1968),
dirigido por Richard MacNeish (1918-2001).
Ambos os projetos demonstraram maior antiguidade da
economia de produção e a ocorrência de mudanças
graduais.
economia de produção e a ocorrência de mudanças
graduais.
Trend and tradition in the prehistory of the Eastern United
States (1958) de Joseph Caldwell (1916-1973).
States (1958) de Joseph Caldwell (1916-1973).
Prehistoric settlement patterns in the Virú Valley, Peru
(1953), de Gordon Willey (1913-2002).
(1953), de Gordon Willey (1913-2002).
Prospeção, designadamente com fotografia aérea;
Recolha de cerâmicas (para inferir cronologias) e registo
de estruturas (para inferir funcionalidades);
de estruturas (para inferir funcionalidades);
Depois de definidas as relações sincrónicas e
diacrónicas entre sítios seria possível compreender a
evolução de diversos aspetos da vida humana ao longo
do tempo longo;
diacrónicas entre sítios seria possível compreender a
evolução de diversos aspetos da vida humana ao longo
do tempo longo;
Os sítios deixam de ser vistos como representativos de
uma dada sociedade, mas como elementos de uma rede
mais vasta onde desempenham um papel específico e
complementar dos restantes.
uma dada sociedade, mas como elementos de uma rede
mais vasta onde desempenham um papel específico e
complementar dos restantes.
E desembocou no desenvolvimento da
Arqueologia do povoamento
Arqueologia do povoamento
A World Archaeology
A revolução do carbono 14
✴ permitiu precisar sequências e compará-las;
✴ Renovou interesse na ecologia comparativa e
nos processos evolutivos.
✴ Renovou interesse na ecologia comparativa e
nos processos evolutivos.
World prehistory (1961) de Grahame Clark
Os trabalhos de Renfrew nos anos 70
A Nova Arqueologia e
Arqueologia processualista
Arqueologia processualista
Arqueologia processualista
Aspetos da Conjuntura
Contexto sócio-político dos EUA no pós-guerra
Fase de optimismo e confiança no progresso
Motivou renovado interesse nas questões evolutivas
Tomada de consciência que a Antropologia de Boas não
explica mudanças
explica mudanças
Renovado interesse no positivismo e no behaviorismo
Mas ambiente profundamente reacionário do ponto de
vista político: o Macartismo.
vista político: o Macartismo.
Teóricos
Leslie White (1900-1975)
Rejeitou:
o particularismo histórico;
o reducionismo psicológico;
o agencialismo.
o reducionismo psicológico;
o agencialismo.
Propôs uma alternativa
o conceito de evolução
geral:
geral:
Explicar a tendência principal do desenvolvimento cultural
Concentrava-se apenas sobre as culturas mais avançadas de
cada período (progresso não era universal)
cada período (progresso não era universal)
Culturas são compostas pelos subsistemas tecnoeconómico,
social e ideológico
social e ideológico
O primeiro condiciona o segundo; o terceiro corresponde à
expressão da experiência condicionada pelo primeiro e
refratada pelo segundo.
expressão da experiência condicionada pelo primeiro e
refratada pelo segundo.
A lei da evolução
Cultura = Energia x Tecnologia
Defendia assim um determinismo tecnológico que refletia a
ideia então dominante da relação privilegiada entre
tecnologia e sociedade.
ideia então dominante da relação privilegiada entre
tecnologia e sociedade.
Julian Steward (1902-1972)
Defendia a multilinearidade dos processos evolutivos e uma
abordagem ecológica.
abordagem ecológica.
Existiam regularidades que, eram, no entanto, determinadas
pelo meio ambiente.
pelo meio ambiente.
Privilegiava o comparativismo etnográfico de forma a identificar as similitudes entre sociedades nos mesmos estádios de desenvolvimento e em ambientes semelhantes
Estas similitudes eram o “cultural core” da etapa de dada linha evolutiva. Correspondiam a padrões económicos, políticos e religiosos cujo valor adaptativo seria determinado empiricamente.
A Nova Arqueologia
Elman Service (1915-1996)
Marshal Sahlins (1930-2021)
Marshal Sahlins (1930-2021)
Distinguiram evolução geral (progresso) de específica
(adaptação)
(adaptação)
Marvin Harris (1927-2001)
Cultural materialism: The struggle for a science of Culture (1979)
O materialismo cultural: a cultura é determinada por uma série
de condições materiais onde se inclui a tecnologia, a
demografia e as relações económicas. Todos os fenómenos
sociais devem ser explicados em termos de custos e benefícios.
de condições materiais onde se inclui a tecnologia, a
demografia e as relações económicas. Todos os fenómenos
sociais devem ser explicados em termos de custos e benefícios.
O que distingue o evolucionismo
do século XIX do XX
do século XIX do XX
• tecnologia (White)
• ambiente (Steward)
• relações económicas (Harris)
• ambiente (Steward)
• relações económicas (Harris)
Mas sobretudo, o facto de considerarem (como os difusionistas) que as causas para a mudança são sempre exteriores à sociedade e,
consequentemente, mais forçadas que inerentes às sociedades.
consequentemente, mais forçadas que inerentes às sociedades.
Na Arqueologia...
O evolucionismo esteve sempre presente, ainda que
esporadicamente e sempre associado ao históricoculturalismo.
Destaque-se os trabalhos de Childe.
esporadicamente e sempre associado ao históricoculturalismo.
Destaque-se os trabalhos de Childe.
Mas é em 1960 que se identifica a primeira aplicação
das correntes neoevolucionistas em Arqueologia, em
trabalho de Betty J. Meggers (1921-2012),
das correntes neoevolucionistas em Arqueologia, em
trabalho de Betty J. Meggers (1921-2012),
propõe para sociedades de pequena escala uma readaptação da
fórmula de White: Cultura = Ambiente x Tecnologia (1960).
fórmula de White: Cultura = Ambiente x Tecnologia (1960).
O termo "Nova Arqueologia é proposto por Joseh Caldwell (1916-1973) em artigo na Science (1959) —“The New American Archaeology” no qual identifica as principais tendências da disciplina há época:
• A abordagem ecológica;
• Os padrões de povoamento;
• O progresso cultural.
• Os padrões de povoamento;
• O progresso cultural.
Defende a ideia que as linhas evolutivas são múltiplas
mas infinitamente menores que o suposto...
mas infinitamente menores que o suposto...
Mas é a Lewis Binford que (1929-2011) que devemos a sistematização do que então se chamou a Nova Arqueologia
1962 — “Archaeology as Anthropology”, American
Antiquity, 28(2)
Antiquity, 28(2)
1965 — “Archaeological systematics and the study of
Culture Process”, American Antiquity, 31(2).
Culture Process”, American Antiquity, 31(2).
New perspectives in Archaeology (1968)
Esta diz que:
A Arqueologia deve ter como objetivo explicar as
similitudes e diferenças do comportamento cultural.
similitudes e diferenças do comportamento cultural.
A cultura era vista como uma adaptação
extrassomática das comunidades humanas
ao meio.
Logo as mudanças eram vistas como respostas adaptativas a mudanças exteriores à
sociedade, como alterações ambientais, a pressão demográfica ou a competição.
sociedade, como alterações ambientais, a pressão demográfica ou a competição.
Como a mudança era vista como uma resposta
adaptativa, as especificidades culturais nunca explicariam
nada.
adaptativa, as especificidades culturais nunca explicariam
nada.
O comportamento humano era, segundo Binford relacionável com sistemas culturais funcionalmente integrados e a Arqueologia estava
em boas condições para estudar as mudanças ao longo do tempo.
em boas condições para estudar as mudanças ao longo do tempo.
Binford partia do princípio que as diferentes
comunidades conheciam perfeitamente o meio em que
viviam e que dele tiravam o melhor proveito.
comunidades conheciam perfeitamente o meio em que
viviam e que dele tiravam o melhor proveito.
A transmissão dos conhecimento era um não problema,
visto que mesmo que houvesse falha na passagem, o
sistema obrigatoriamente se reporia.
visto que mesmo que houvesse falha na passagem, o
sistema obrigatoriamente se reporia.
As explicações deviam tomar a forma de generalizações que dessem conta das mudanças no sistema e da evolução cultural.
Importa, por isso, procurar as similitudes detetáveis
em diferentes culturas.
em diferentes culturas.
O conceito de cultura arqueológica foi completamente descartado, assim como as explicações baseadas nas migrações e nas difusões. Admitia-se contudo as interações entre diversas comunidades.
Tinha influências quer do evolucionismo unicultural do
século XIX, quer das propostas ecológicas de Steward.
século XIX, quer das propostas ecológicas de Steward.
Como os histórico-culturalistas, considerava a
humanidade como intrinsecamente conservadora (a
mudança era sempre explicada por um estímulo externo)
humanidade como intrinsecamente conservadora (a
mudança era sempre explicada por um estímulo externo)
Ou seja, o progresso era real mas independente da
vontade dos humanos.
vontade dos humanos.
cultura como sistema cultural
A cultura era vista como sistema de partes integradas.
Com diferenciações internas relacionadas, pelo menos
com a idade e o sexo. Com a complexificação aumenta a
diferenciação.
com a idade e o sexo. Com a complexificação aumenta a
diferenciação.
Logo, era necessário uma visão holística destes sistemas
Considerava-se que estes eram compostos por 3
subsistemas interligados: a tecnologia, a organização social e a
ideologia.
subsistemas interligados: a tecnologia, a organização social e a
ideologia.
Logo cada artefacto tinha aspetos tecnómicos,
sóciotécnicos e ideotécnicos, embora cada um possa
se relacionar mais com um destes aspetos que com os
restantes
sóciotécnicos e ideotécnicos, embora cada um possa
se relacionar mais com um destes aspetos que com os
restantes
Binford não acreditava na “escada” de Hawkes. Simplesmente
pensava que ainda não havia suficiente trabalho
antropológico que permitisse correlações satisfatórias entre
comportamento social e simbólico e a cultura material.
pensava que ainda não havia suficiente trabalho
antropológico que permitisse correlações satisfatórias entre
comportamento social e simbólico e a cultura material.
Daí a importância da Etnoarqueologia
método hipotético-dedutivo
As analogias e/ou homologias não são suficientes, É
necessário demonstrar a correlação entre
determinado comportamento humano e uma dada
evidência material.
necessário demonstrar a correlação entre
determinado comportamento humano e uma dada
evidência material.
Isto implica uma Arqueologia mais dedutiva e uma
grande importância dos testes estatísticos.
grande importância dos testes estatísticos.
As únicas correlações úteis são as que se verificam
em qualquer situação.
em qualquer situação.
Logo a História não interessa para o objetivo da
arqueologia, porque cheia de vicissitudes e
particularismos.
arqueologia, porque cheia de vicissitudes e
particularismos.
o insucesso ao nível de
correlações entre comportamento humano e cultura
material levou
correlações entre comportamento humano e cultura
material levou
Middle Range
Theory
Theory
Mais que correlações entre artefactos específicos e
comportamento, é preciso
comportamento, é preciso
identificar os padrões espaciais, temporais e
formais dos vestígios materiais resultantes de
determinado comportamento atual
formais dos vestígios materiais resultantes de
determinado comportamento atual
identificar o mesmo tipo de padrões no registo
arqueológico
arqueológico
As estratégias
Como a cultura era vista como um sistema de partes
interligadas, começou-se a pensar que uma
amostragem aleatória seria suficiente para entender
todo o sistema
interligadas, começou-se a pensar que uma
amostragem aleatória seria suficiente para entender
todo o sistema
Ou seja, a escavação de um sítio seria
representativa de todo o sistema...
representativa de todo o sistema...
Mas cedo se percebeu que era preciso muito mais do
que escavar apenas um sítio.
que escavar apenas um sítio.
A própria polémica com Bordes revelou isso
Os “sociólogos das cerâmicas”, que pretendiam
identificar através das cerâmicas padrões de patri ou matrilocalidade, assim como matrilinhagens num sítio A
identificar através das cerâmicas padrões de patri ou matrilocalidade, assim como matrilinhagens num sítio A
A Arqueologia da morte para identificar
estratificação social.
estratificação social.
A importância dos “quadros de referência”.
Levou ao desenvolvimento da
Etnoarqueologia
Arqueologia experimental
Recolha de dados etnográficos
Tafonomia
Arqueologia experimental
Recolha de dados etnográficos
Tafonomia
Porque é que a Nova Arqueologia foi tão
polarizadora?
polarizadora?
Aparece como uma crítica aguçada da Arqueologia
Histórico-cultura
Histórico-cultura
Dá a impressão que nada de novo tinha aparecido
antes
antes
Porquê do sucesso de ideias que já estavam em
germinação?
germinação?
A valorização das “leis”, como algo de útil,
nomeadamente para a gestão de problemas sociais e
outros (e.g. sistemas de irrigação)
nomeadamente para a gestão de problemas sociais e
outros (e.g. sistemas de irrigação)
O “desprezo” pela história, vigente no “presentismo”
americano e, provavelmente um prório reflexo
ideológico do intervencionismo dos EUA após a II.ª
Guerra Mundial.
americano e, provavelmente um prório reflexo
ideológico do intervencionismo dos EUA após a II.ª
Guerra Mundial.
As próprias fontes de financiamento que passaram a
vir essencialmente da Nacional Science Foundation
vir essencialmente da Nacional Science Foundation
diversidade da Arqueologia processual
Os estudos ecológicos (exemplo da Optimal Foraging
Theory ou do próprio Binford).
Theory ou do próprio Binford).
A teoria geral dos sistemas (e.g. Kent Flannery
ou Patty Jo Watson et al.).
ou Patty Jo Watson et al.).
O conceito de feedback (negativo e positivo).
A extensão do estudo do âmbito puramente
ecológico (Watson et al.) ao funcional (Flannery).
ecológico (Watson et al.) ao funcional (Flannery).
Levou ao desenvolvimento de estudos holísticos e à
identificação de diversas causas para a mudança
identificação de diversas causas para a mudança
Flannery apercebe-se também da importância das
ideias e cognição como fatores de desenvolvimento
cultural.
ideias e cognição como fatores de desenvolvimento
cultural.
A Arqueologia social, mais que cultural (e.g. Renfrew)
A Arqueologia comportamental
(e.g. oGarbage project de Whilliam Rathje, 1974 ou M.Schiffer, 1976 onde se defende a necessidade de uma ciência da cultural material). Admitiu explicações causais para além da ecologia. Os correlatos, os processos de formação cultural (C-transforms) e os processos de formação não cultural (N-transforms). Reforçado interesse na Etnoarqueologia
David Clarke (1938-1976)
Analytical Archaeology (1968)
Já defendia a criação de uma ciência da cultura material que complementasse a antropologia social e cognitiva.
Focou-se sobre o estudo dos artefactos, quepretendia interpretar a partir de perspectivas morfológicas, ecológicas, geográficas e antropológicas, recorrendo por vezes à estatística.
Do ponto de vista da morfologia, definiu uma série
de conceitos que se relacionavam entre si de forma
ascendente:
de conceitos que se relacionavam entre si de forma
ascendente:
caraterística - tipo - cultura-tecnocomplexo.
Era uma abordagem indutiva, na medida em que
procurava mais situar cada artefacto numa classe
que explicar a sua variabilidade.
procurava mais situar cada artefacto numa classe
que explicar a sua variabilidade.
Archaeology: the loss of inocence (1973)
Como relacionar os materiais com
comportamento?
comportamento?
Desde logo era preciso ter conciência que a
Arqueologia era “the discipline with the theory and
practice for the recovery of unobservable hominid
behaviour patterns from indirect traces in bad samples”
Clarke, 1973.
Arqueologia era “the discipline with the theory and
practice for the recovery of unobservable hominid
behaviour patterns from indirect traces in bad samples”
Clarke, 1973.
Como fazemos as inferências?
• teoria pré-deposicional
• teoria pós-deposicional
• teoria da recuperação
• teoria analítica
• teoria interpretativa
• teoria pós-deposicional
• teoria da recuperação
• teoria analítica
• teoria interpretativa
As duas extremidades podem
utilizar os contributos das
ciências sociais, mas as
restantes têm que socorrer-se
dos das ciências físicas e
biológicas.
utilizar os contributos das
ciências sociais, mas as
restantes têm que socorrer-se
dos das ciências físicas e
biológicas.
Mas não descurou a História
nem procurou inferir
generalizações
nem procurou inferir
generalizações
Marxista
O que distingue o ser humano do
resto dos viventes?
resto dos viventes?
"eles começam a distinguir-se dos animais
assim que começam a produzir os seus meios
de vida"
assim que começam a produzir os seus meios
de vida"
Uma aranha realiza operações que se
assemelham às do tecelão e uma abelha,
através da construção dos seus alvéolos de
cera, envergonha muitos mestres-de-obras
humanos. O que, porém, de antemão
distingue o pior mestre-de-obras da melhor
abelha é que ele construiu o alvéolo na sua
cabeça antes de o construir em cera
assemelham às do tecelão e uma abelha,
através da construção dos seus alvéolos de
cera, envergonha muitos mestres-de-obras
humanos. O que, porém, de antemão
distingue o pior mestre-de-obras da melhor
abelha é que ele construiu o alvéolo na sua
cabeça antes de o construir em cera
Mas esta diferença é apenas de escala:
Como diz Engels, é evidente que não
nos ocorre contestar aos animais a
capacidade de maneiras de agir
planificadas, premeditadas
nos ocorre contestar aos animais a
capacidade de maneiras de agir
planificadas, premeditadas
Mas
toda a ação planificada de todos os animais
não fez com que a Terra ficasse marcada pelo
cunho da sua vontade. Para isso era preciso o
homem” (Quota-parte do trabalho na
hominização do macaco, pp. 79-80).
toda a ação planificada de todos os animais
não fez com que a Terra ficasse marcada pelo
cunho da sua vontade. Para isso era preciso o
homem” (Quota-parte do trabalho na
hominização do macaco, pp. 79-80).
Faz isto no contexto de relações sociais
Os homens não atuam só sobre a
Natureza mas também uns sobre os outros.
Natureza mas também uns sobre os outros.
Produzem apenas atuando conjuntamente
dum modo determinado e trocando as
suas atividades umas pelas outras
dum modo determinado e trocando as
suas atividades umas pelas outras
"Para produzirem entram em determinadas ligações e
relações uns com os outros, e só no seio destas
ligações e relações sociais se efetua a sua
acção sobre a Natureza, se efetua a produção”
(Marx, Trabalho assalariado e capital, 1849, p. 183)
relações uns com os outros, e só no seio destas
ligações e relações sociais se efetua a sua
acção sobre a Natureza, se efetua a produção”
(Marx, Trabalho assalariado e capital, 1849, p. 183)
"As relações sociais em que os indivíduos
produzem, as relações sociais de produção
alteram-se portanto, transformam-se com a
alteração e desenvolvimento dos meios
materiais de produção, as forças de
produção. As relações de produção na sua
totalidade formam aquilo a que se dá o
nome de relações sociais, a sociedade”
produzem, as relações sociais de produção
alteram-se portanto, transformam-se com a
alteração e desenvolvimento dos meios
materiais de produção, as forças de
produção. As relações de produção na sua
totalidade formam aquilo a que se dá o
nome de relações sociais, a sociedade”
segundo Marx
A totalidade destas relações de produção forma a estrutura económica da sociedade, a base real sobre a qual se ergue uma superstrutura jurídica e política, e à qual correspondem determinadas formas da consciência social. O modo de
produção da vida material é que condiciona o processo da vida social, política e espiritual”
produção da vida material é que condiciona o processo da vida social, política e espiritual”
A vida social dos humanos (Marx, 1859)
Infaestrutura
Modo de produção
Forças produtivas: Forças de trabalho e meios de produção
Relações de produção
Superestrutura
“formas jurídicas, políticas, religiosas,
artísticas ou filosóficas, em suma, ideológicas”
artísticas ou filosóficas, em suma, ideológicas”
“toda uma superstrutura de sensações,
ilusões, modos de pensar e visões da vida
diversos e formados de um modo peculiar”
(Marx,1852)
ilusões, modos de pensar e visões da vida
diversos e formados de um modo peculiar”
(Marx,1852)
Carta a Joseph Bloch, escrita por Engels em
1890 e publicada em 1895
1890 e publicada em 1895
Em última instância determinante
A situação económica é a base, mas
os diversos momentos da superstrutura
os diversos momentos da superstrutura
exercem também a sua influência sobre o
curso das lutas históricas e determinam em muitos
casos preponderantemente a forma delas.
curso das lutas históricas e determinam em muitos
casos preponderantemente a forma delas.
Marx e eu temos, nós próprios, que ser culpados, em
parte, de que, por vezes, seja pelos mais jovens dado
mais peso ao lado económico do que lhe cabe.
parte, de que, por vezes, seja pelos mais jovens dado
mais peso ao lado económico do que lhe cabe.
A essência humana
6.ª tese sobre Feuerbach (Marx, 1845)
“Feuerbach resolve a essência religiosa na
essência humana. Mas a essência humana
não é uma abstração inerente a cada
indivíduo. Na sua realidade ela é o conjunto
das relações sociais.”
essência humana. Mas a essência humana
não é uma abstração inerente a cada
indivíduo. Na sua realidade ela é o conjunto
das relações sociais.”
Marx e Engels, A Ideologia Alemã, p. 29
“A “concepção” de Feuerbach do mundo
sensível limita-se, por um lado, à mera
contemplação deste, e, por outro, à mera
sensação; ele diz “o Homem” em vez de
o(s) “homens históricos reais”. “O
Homem” é, realiter, “o Alemão”.
sensível limita-se, por um lado, à mera
contemplação deste, e, por outro, à mera
sensação; ele diz “o Homem” em vez de
o(s) “homens históricos reais”. “O
Homem” é, realiter, “o Alemão”.
Sendo assim Não há essência humana!
Relações históricas primordiais, ou os aspetos
básicos da atividade social (A Ideologia Alemã)
básicos da atividade social (A Ideologia Alemã)
• A produção dos meios de subsistência
• A produção de novas necessidades
• A reprodução humana
• A produção de novas necessidades
• A reprodução humana
“a produção da vida, tanto da própria, no trabalho, como da alheia, na procriação, surge imediatamente como uma dupla relação: por um lado, como relação natural, por outro como relação social — social no sentido em que aqui se entende a cooperação de vários indivíduos seja em que circunstância for e não importa de que modo e com que fim.”
Da necessidade da carência física
do intercâmbio com outros
homens” terá nascido a
consciência e a sua materialização
— a linguagem.
do intercâmbio com outros
homens” terá nascido a
consciência e a sua materialização
— a linguagem.
No contexto destas relações sociais
nascem inevitavelmente tensões
nascem inevitavelmente tensões
Por
exemplo, estudos antropológicos
sugerem que a partir de 6 pessoas já há
necessidade de negociações para que a
cooperação ocorra.
exemplo, estudos antropológicos
sugerem que a partir de 6 pessoas já há
necessidade de negociações para que a
cooperação ocorra.
Mesmo uma divisão do trabalho
embrionária que “originalmente nada
era senão a divisão do trabalho no ato
sexual, e depois a divisão espontânea
ou “natural” do trabalho em virtude da
disposição natural (p. ex. a força física),
de necessidades, acasos, etc., etc.”, tem
em germe estas tensões, porque a ela
associa-se o problema da repartição
do trabalho e dos seus produtos
embrionária que “originalmente nada
era senão a divisão do trabalho no ato
sexual, e depois a divisão espontânea
ou “natural” do trabalho em virtude da
disposição natural (p. ex. a força física),
de necessidades, acasos, etc., etc.”, tem
em germe estas tensões, porque a ela
associa-se o problema da repartição
do trabalho e dos seus produtos
Numa sociedade organizada em classes,
é evidente a repartição desigual do
produto do trabalho: uma parte vai
para o produtor e outra para o
detentor dos meios de produção.
é evidente a repartição desigual do
produto do trabalho: uma parte vai
para o produtor e outra para o
detentor dos meios de produção.
Numa sociedade dividida em classes,
toda uma uma classe de indivíduos é
forçada a passar uma parte dos
produtos do seu trabalho à classe
que detém os meios de produção.
toda uma uma classe de indivíduos é
forçada a passar uma parte dos
produtos do seu trabalho à classe
que detém os meios de produção.
Mas mesmo numa sociedade sem
classes, o indivíduo (caçador-recoletor
ou já produtor de alimentos) nunca, ou
raramente, produz só para ele. Há que
alimentar as crianças, os idosos, os
enfermos... Existem as diferentes
disposições naturais referidas atrás, as
divisões sexuais do trabalho, etc, etc.
classes, o indivíduo (caçador-recoletor
ou já produtor de alimentos) nunca, ou
raramente, produz só para ele. Há que
alimentar as crianças, os idosos, os
enfermos... Existem as diferentes
disposições naturais referidas atrás, as
divisões sexuais do trabalho, etc, etc.
chama Marx trabalho
necessário
necessário
Ao trabalho que o indivíduo despendeu para
“ganhar os meios de vida precisos para a sua
própria conservação ou constante
reprodução”
“ganhar os meios de vida precisos para a sua
própria conservação ou constante
reprodução”
Chama Marx sobretrabalho
Ao trabalho que ele efetua para o detentor
dos meios de produção
dos meios de produção
Só a forma em que este trabalho é
extorquido ao produtor imediato, ao
operário, distingue as formações
económicas da sociedade
extorquido ao produtor imediato, ao
operário, distingue as formações
económicas da sociedade
No modo de produção capitalista, essa
forma é a mais-valia
forma é a mais-valia
Orçamento escavação de um mês: 15 000 €
Consumíveis: 300 €
5 Arqueólogos com ordenado de 1100 €
9200 € de mais-valia
9200:5=1840 €
Valor produzido por cada arqueólogo: 1840+1100=2940 €
Consumíveis: 300 €
5 Arqueólogos com ordenado de 1100 €
9200 € de mais-valia
9200:5=1840 €
Valor produzido por cada arqueólogo: 1840+1100=2940 €
2940:22=133,64 1100:133,64=8,23
Se arredondarmos o número de dias necessários para produzir o valor do seu
salário para nove, treze dias de cada arqueólogo foram de sobretrabalho!
salário para nove, treze dias de cada arqueólogo foram de sobretrabalho!
O tempo de sobretrabalho na sociedade
capitalista está “camuflado”, mistura-se com
o do trabalho necessário, mas há formações
onde estes tempos são autónomos, como
determinadas formas de trabalho servil.
capitalista está “camuflado”, mistura-se com
o do trabalho necessário, mas há formações
onde estes tempos são autónomos, como
determinadas formas de trabalho servil.
Marx dá o exemplo do camponês valáquio
— o que “executa para a sua
autoconservação está espacialmente
separado do seu sobretrabalho para o
boiardo. Um executa-o ele no seu próprio
campo, o outro, na terra senhorial.”
— o que “executa para a sua
autoconservação está espacialmente
separado do seu sobretrabalho para o
boiardo. Um executa-o ele no seu próprio
campo, o outro, na terra senhorial.”
E numa sociedade sem classes?
se numa formação económica não
prevalecer o valor de troca, mas o valor de
uso do produto, o sobretrabalho está
limitado por um círculo mais estreito ou
mais largo de necessidades, mas do carácter
da própria produção não brota qualquer
necessidade ilimitada de sobretrabalho”
prevalecer o valor de troca, mas o valor de
uso do produto, o sobretrabalho está
limitado por um círculo mais estreito ou
mais largo de necessidades, mas do carácter
da própria produção não brota qualquer
necessidade ilimitada de sobretrabalho”
Mesmo o trabalho servil pode não consistir
em servidão. Marx dá o exemplo dos
camponeses dos principados do Danúbio,
que a par do terreno próprio, cultivavam
também, em comum, uma terra comunitária
para reserva da comunidade.
em servidão. Marx dá o exemplo dos
camponeses dos principados do Danúbio,
que a par do terreno próprio, cultivavam
também, em comum, uma terra comunitária
para reserva da comunidade.
É aqui que a superstrutura se revela
importante
importante
com a divisão do trabalho está dada, ao
mesmo tempo, a contradição entre o
interesse de cada um dos indivíduos ou
de cada uma das famílias e o interesse
comunitário de todos os indivíduos que
mantém intercâmbio uns com os outros
mesmo tempo, a contradição entre o
interesse de cada um dos indivíduos ou
de cada uma das famílias e o interesse
comunitário de todos os indivíduos que
mantém intercâmbio uns com os outros
a verdade é que este interesse comunitário de modo
nenhum existe meramente na representação, como
“universal”, mas antes de mais na realidade, como
dependência recíproca dos indivíduos entre os
quais o trabalho está dividido”
nenhum existe meramente na representação, como
“universal”, mas antes de mais na realidade, como
dependência recíproca dos indivíduos entre os
quais o trabalho está dividido”
E é precisamente por esta contradição que
o interesse comunitário assume uma
forma autónoma como Estado, separado
dos interesses reais dos indivíduos e do todo,
e ao mesmo tempo como comunidade
ilusória, mas sempre sobre a base real dos
laços existentes em todos os conglomerados
de famílias e tribais
o interesse comunitário assume uma
forma autónoma como Estado, separado
dos interesses reais dos indivíduos e do todo,
e ao mesmo tempo como comunidade
ilusória, mas sempre sobre a base real dos
laços existentes em todos os conglomerados
de famílias e tribais
e especialmente
das classes desde logo condicionadas pela
divisão do trabalho e que se diferenciam em
todas essas massas de homens, e das quais
uma domina todas as outras
divisão do trabalho e que se diferenciam em
todas essas massas de homens, e das quais
uma domina todas as outras
Numa sociedade de classes
“As ideias da classe dominante são, em todas as
épocas, as ideias dominantes”
épocas, as ideias dominantes”
é obrigada [...] a apresentar o seu interesse
como interesse comunitário de todos os
membros da sociedade, ou seja, na expressão
ideal: a dar às suas ideias a forma da
universalidade, a apresentá-las como as únicas
racionais e universalmente válidas.”
como interesse comunitário de todos os
membros da sociedade, ou seja, na expressão
ideal: a dar às suas ideias a forma da
universalidade, a apresentá-las como as únicas
racionais e universalmente válidas.”
Em sociedades pré-estatais
Tem que existir, ainda assim, as referidas
formas autónomas de que se reveste o
interesse comunitário, assim como as ideias
que as sustentam.
formas autónomas de que se reveste o
interesse comunitário, assim como as ideias
que as sustentam.
No caso dos caçadores-recolectores, ainda
que igualitários, há ainda que contar com
outros problemas, como a pool genética, as
redes de solidariedade, os free loaders, a
extensão das redes sociais para lá dos
coletivos humanos...
que igualitários, há ainda que contar com
outros problemas, como a pool genética, as
redes de solidariedade, os free loaders, a
extensão das redes sociais para lá dos
coletivos humanos...
E é aqui que se revestem de grande
importância fenómenos que se relacionam
com as instituições ligadas a essas formas
autónomas de que se reveste o interesse
comunitário e com a inculcação das ideias
que as sustentam.
importância fenómenos que se relacionam
com as instituições ligadas a essas formas
autónomas de que se reveste o interesse
comunitário e com a inculcação das ideias
que as sustentam.
“Os homens fazem a sua própria história, mas
não a fazem segundo a sua livre vontade, em
circunstâncias escolhidas por eles próprios,
mas nas circunstâncias imediatamente
encontradas, dadas e transmitidas. A tradição
de todas as gerações mortas pesa sobre o
cérebro dos vivos como um pesadelo”
não a fazem segundo a sua livre vontade, em
circunstâncias escolhidas por eles próprios,
mas nas circunstâncias imediatamente
encontradas, dadas e transmitidas. A tradição
de todas as gerações mortas pesa sobre o
cérebro dos vivos como um pesadelo”
Como se relaciona o Marxismo
com a Arqueologia?
com a Arqueologia?
“Toda a produção é apropriação (Aneignung)
da Natureza por parte do indivíduo no
interior e por intermédio de uma
determinada forma de sociedade”
da Natureza por parte do indivíduo no
interior e por intermédio de uma
determinada forma de sociedade”
A doutrina materialista de que os seres
humanos são produtos das circunstâncias e da
educação, [de que] seres humanos
transformados são portanto produtos de
outras circunstâncias e de uma educação
mudada
humanos são produtos das circunstâncias e da
educação, [de que] seres humanos
transformados são portanto produtos de
outras circunstâncias e de uma educação
mudada
as circunstâncias
são transformadas precisamente
pelos seres humanos e que o
educador tem ele próprio que ser
educado
são transformadas precisamente
pelos seres humanos e que o
educador tem ele próprio que ser
educado
à sua pergunta por causa da
“cientificidade
“cientificidade
respondo-lhe: o livro é científico, mas não [é]
científico no sentido do governo prussiano
científico no sentido do governo prussiano
Há que ter em conta a relação
fenómeno/ essência:
fenómeno/ essência:
Para um histórico-culturalista, existe
distinção.
distinção.
Para um processualista coincide
Para um marxista, o fenómeno é um
nódulo de relações que remetem
para a totalidade do social.
nódulo de relações que remetem
para a totalidade do social.
O produto que entra na troca é a mercadoria. Ele é porém mercadoria porque à coisa, ao produto, se liga uma relação entre duas pessoas ou comunidades [...]. Estas relações estão, porém sempre ligadas a coisas e aparecem como coisas. Esta conexão [...] descobriu-a Marx pela primeira vez [...]” Engels, 1859
Para se
tornar mercadoria o produto tem de ser transferido por meio da
troca para o outro a quem serve como valor de uso.}”
tornar mercadoria o produto tem de ser transferido por meio da
troca para o outro a quem serve como valor de uso.}”
O camponês medieval produzia o cereal
do tributo para o senhor feudal e o cereal do dízimo para o clérigo.
mas nem o cereal do tributo nem o do dízimo se tornavam
mercadoria pelo facto de terem sido produzidos para outros.
do tributo para o senhor feudal e o cereal do dízimo para o clérigo.
mas nem o cereal do tributo nem o do dízimo se tornavam
mercadoria pelo facto de terem sido produzidos para outros.
Para produzir
mercadoria, tem, não apenas de produzir valor de uso, mas também
valor de uso para outros, valor de uso social.
mercadoria, tem, não apenas de produzir valor de uso, mas também
valor de uso para outros, valor de uso social.
Uma coisa pode ser útil e produto de trabalho humano sem ser
mercadoria. Quem satisfaz a sua necessidade própria com produto
seu cria, por certo, valor de uso, mas não mercadoria
mercadoria. Quem satisfaz a sua necessidade própria com produto
seu cria, por certo, valor de uso, mas não mercadoria
A arqueologia marxistaw
A Arqueologia pratica-se num dado contexto social e político que a influencia e que limita o seu acesso neutro ao passado.
A Arqueologia deve procurar, a partir do estudo das “coisas” que revela e das relações que estas estabelecem entre si e com o restante contexto de onde emergem, inferir as relações sociais que
estão por trás delas.
estão por trás delas.
Não é possível inferir leis universais, devendo-se valorizar, na linha de Marx, as tendências
A mudança deve-se aos processos internos das sociedades, designadamente das tensões que aí se criam e que decorrem do próprio viver em sociedade.
Os fenómenos devem vistos como nódulos de relações que se referem à totalidade dos sistemas sociais e não como essências em si ou como manifestações de uma essência ideal
Estas tensões podem ser controladas/ matizadas pela superstrutura (ideias dominantes e instituições), cujas evidências são de importância capital.
A Arqueologia soviética
1928-finais dos anos 30
A 8 de abril de 1919, um decreto do
Conselho de Comissários do Povo cria a
Academia Russa para a História da Cultura
Material (RAIMK)
Conselho de Comissários do Povo cria a
Academia Russa para a História da Cultura
Material (RAIMK)
A partir de 1922, com a criação da URSS,
passou a designar-se Academia Estatal para a
História da Cultura Material (GAIMK).
passou a designar-se Academia Estatal para a
História da Cultura Material (GAIMK).
em 1922 são criados dois institutos de
arqueologia nas Universidades de Petrogrado
e Moscovo.
arqueologia nas Universidades de Petrogrado
e Moscovo.
Alguns dos estudantes saiam daqui para o GAIMK
onde, depois de pós-graduações, ficavam a
trabalhar aqui ou seguiam para um dos múltiplos
museus que se estavam entretanto a criar.
onde, depois de pós-graduações, ficavam a
trabalhar aqui ou seguiam para um dos múltiplos
museus que se estavam entretanto a criar.
Em 1928 já existiam cinco vezes mais museus que
antes da Grande Guerra (1914-1918).
antes da Grande Guerra (1914-1918).
Floresciam também as associações regionais que
se responsabilizavam pelo estudo e conservação
do património.
se responsabilizavam pelo estudo e conservação
do património.
Entre 1921 e 1928 vive-se o período da Nova
Política Económica.(NEP)
Política Económica.(NEP)
Esta política permitiu a continuidade de uma série
de arqueólogos que vinham do período prérevolucionário,
continuando-se a privilegiar o
paradigma histórico-culturalista, embora se
tenham feito algumas tentativas para lhe dar um
cunho marxista, mas que acabava por ser mais
materialista que materialista dialético (grande
ênfase na tecnologia).
de arqueólogos que vinham do período prérevolucionário,
continuando-se a privilegiar o
paradigma histórico-culturalista, embora se
tenham feito algumas tentativas para lhe dar um
cunho marxista, mas que acabava por ser mais
materialista que materialista dialético (grande
ênfase na tecnologia).
Em 1928 arranca o primeiro plano quinquenal.
Ao mesmo tempo, começa a ocorrer uma
revolução cultural que dura até 1932.
revolução cultural que dura até 1932.
Alguns arqueólogos, organizados designadamente
na célula do Partido do GAIMK, exigem quer uma
maior aderência dos arqueólogos à disciplina
partidária, quer a elaboração de uma visão
marxista da história da cultura
material.
na célula do Partido do GAIMK, exigem quer uma
maior aderência dos arqueólogos à disciplina
partidária, quer a elaboração de uma visão
marxista da história da cultura
material.
Destaca-se nesta luta o arqueólogo Vladislav
Iosifovich Ravdonikas (1894-1976), que escreve
em 1929 o relatório “Por uma história soviética
da cultura material”, publicado em 1930 e com
uma grande influência por toda a URSS
Iosifovich Ravdonikas (1894-1976), que escreve
em 1929 o relatório “Por uma história soviética
da cultura material”, publicado em 1930 e com
uma grande influência por toda a URSS
Ravdonikas acaba por liderar um grupo de
arqueólogos que vão, pela primeira vez, tentar
elaborar uma abordagem marxista da cultura
material.
arqueólogos que vão, pela primeira vez, tentar
elaborar uma abordagem marxista da cultura
material.
O objetivo destes investigadores era explicar em
termos marxistas, as mudanças ocorridas em
tempos pré-históricos, procurando focar-se mais
sobre a organização social que sobre a tecnologia.
termos marxistas, as mudanças ocorridas em
tempos pré-históricos, procurando focar-se mais
sobre a organização social que sobre a tecnologia.
Mais que a descrição dos achados, importava
reconstruir os modos de produção, determinando
o melhor possível os aspetos relativos à
tecnologia, à organização social, à ideologia.
reconstruir os modos de produção, determinando
o melhor possível os aspetos relativos à
tecnologia, à organização social, à ideologia.
Upgrade:
Aumento das escavações em área e melhoria da
precisão das escavações e dos seu registo. Levou,
nomeadamente, à identificação das primeiras
cabanas paleolíticas e às primeiras escavações
integrais de aldeamentos neolíticos.
precisão das escavações e dos seu registo. Levou,
nomeadamente, à identificação das primeiras
cabanas paleolíticas e às primeiras escavações
integrais de aldeamentos neolíticos.
A escavação dos cemitérios (e o estudo da arte
rupestre) foi levada a cabo com o propósito
declarado de inferir estruturas sociais e investigar
crenças religiosas.
rupestre) foi levada a cabo com o propósito
declarado de inferir estruturas sociais e investigar
crenças religiosas.
Procurou-se inferir padrões de matrilocalidade
com base nos estudos da cerâmica e das
impressões digitais identificadas no interior dos
recipientes (em 1934!).
com base nos estudos da cerâmica e das
impressões digitais identificadas no interior dos
recipientes (em 1934!).
Procurava-se explicar a mudança como resultado
das dinâmicas internas das sociedades. Por
exemplo, os estudos de Kruglov e Podgayetsky
(1935) relacionavam as mudanças ao nível do
ritual funerário do Calcolítico meridional da
Rússia com mudanças ao nível das formas de
propriedade.
das dinâmicas internas das sociedades. Por
exemplo, os estudos de Kruglov e Podgayetsky
(1935) relacionavam as mudanças ao nível do
ritual funerário do Calcolítico meridional da
Rússia com mudanças ao nível das formas de
propriedade.
Constrangimentos teóricos:
A influência de Nicolay Marr (1865-1934), um
linguista que acreditava que as linguagens se
relacionavam apenas com os modos de produção e
que não tinham qualquer relação entre si.
linguista que acreditava que as linguagens se
relacionavam apenas com os modos de produção e
que não tinham qualquer relação entre si.
Como era quem estava à frente do GAIMK, impôs
um paradigma completamente oposto ao
migracionista/ difusionista.
um paradigma completamente oposto ao
migracionista/ difusionista.
Mesmo as evidências mais
claras destes fenómenos foram completamente
ignoradas.
claras destes fenómenos foram completamente
ignoradas.
Isto foi facilitado devido às conotações
destes fenómenos com o racismo e a ausência da
criatividade humana. Conduziu ao definhamento dos
estudos dos materiais.
destes fenómenos com o racismo e a ausência da
criatividade humana. Conduziu ao definhamento dos
estudos dos materiais.
A evolução social era vista como unilinear e tinha
que aderir estritamente ao modelo proposto por
Stálin no seu livro Materialismo histórico e
materialismo dialético (1938), que foi elevado a
dogma.
que aderir estritamente ao modelo proposto por
Stálin no seu livro Materialismo histórico e
materialismo dialético (1938), que foi elevado a
dogma.
“The dogmatism with which Soviet social scientists
adhered to this scheme contrasts sharply with the
views expressed by Marx and Engels, who where
prepared to consider multilinear models of social
evolution, especially with regard to earlier and less
understood periods of human development” (Trigger,
2007, 337).
adhered to this scheme contrasts sharply with the
views expressed by Marx and Engels, who where
prepared to consider multilinear models of social
evolution, especially with regard to earlier and less
understood periods of human development” (Trigger,
2007, 337).
“Para Marx, não se trata, pois, de apurar uma
“conexão” outorgada ou imposta do exterior a uma
multidão indeterminada de factos ou de elementos,
que urge ordenar ou em que é preciso investir um
“sentido”;
“conexão” outorgada ou imposta do exterior a uma
multidão indeterminada de factos ou de elementos,
que urge ordenar ou em que é preciso investir um
“sentido”;
trata-se, sim, de refletir. Não em termos
“automáticos” ou “mecânicos”, mas na forma ideal
concreta que corresponde à consciência científica.
O movimento real e a conexão real das coisas e dos
processos” Barata-Moura, 1997, 93.
“automáticos” ou “mecânicos”, mas na forma ideal
concreta que corresponde à consciência científica.
O movimento real e a conexão real das coisas e dos
processos” Barata-Moura, 1997, 93.
Na Conferência Pan-russa para a
Arqueologia e Etnografia, realizada no
GAIMK em 1930, foram denunciadas uma série
de abordagens vistas como contrárias ao
marxismo: aderência ao formalismo, aos
nacionalismos, ao racismo, à interpretação da
história humana em termos biológicos.
Arqueologia e Etnografia, realizada no
GAIMK em 1930, foram denunciadas uma série
de abordagens vistas como contrárias ao
marxismo: aderência ao formalismo, aos
nacionalismos, ao racismo, à interpretação da
história humana em termos biológicos.
Resposta:
Dispensa, exílio, prisão ou execução de
arqueólogos que não se conformaram com estas
propostas.
arqueólogos que não se conformaram com estas
propostas.
Maior centralização e fim das associações
regionais.
regionais.
Proibição de contactos com os arqueólogos
estrangeiros e momentânea quasi-supressão da
bibliografia estrangeira, que apenas chegava ao
GAIMK.
estrangeiros e momentânea quasi-supressão da
bibliografia estrangeira, que apenas chegava ao
GAIMK.
O Pós-Processualismo
Dos antecedentes às abordagens textuais
Antecedentes:
a semiótica
Ferdinand de Saussure (1857-1913) — Cours de
linguistique générale (1916)
linguistique générale (1916)
• A oposição entre langue e parole;
• O signo como portador de um significante e
um significado;
um significado;
• A natureza arbitrária do signo e a sua
definição apenas por oposição aos restantes;
definição apenas por oposição aos restantes;
• Diacronia e sincronia;
• As relações sintagmáticas e associativas.
o estruturalismo
Claude Lévi-Strauss (1908-2009)
Aplicou as ideias de Saussure às formações
sociais, definindo estruturas sociais.
sociais, definindo estruturas sociais.
Estas podem, assim, ser entendidas como as
relações (sobre as quais não temos
consciência) que sustentam os padrões interrelacionais
que percebemos na sociedade.
relações (sobre as quais não temos
consciência) que sustentam os padrões interrelacionais
que percebemos na sociedade.
Podem manifestar-se em diversos contextos
das formações sociais, através de processos
transformativos.
das formações sociais, através de processos
transformativos.
Debruçou-se sobre o estudo dos mitos e do
ritual, que procurou analisar reduzindo-os às
unidades fundamentais — os mitemas.
ritual, que procurou analisar reduzindo-os às
unidades fundamentais — os mitemas.
A análise
desembocava sempre num dualismo que Lévi-
Strauss acreditava ser universal aos humanos
(cfr. Tilley, 1990).
desembocava sempre num dualismo que Lévi-
Strauss acreditava ser universal aos humanos
(cfr. Tilley, 1990).
André Leroi-Gourhan (1911-1986) — As religiões
da Pré-história (1964); Préhistoire de l’art occidental
(1965)
da Pré-história (1964); Préhistoire de l’art occidental
(1965)
As suas análises são profundamente devedoras
do trabalho de M. Raphael e Annete Lamming-
Emperaire
do trabalho de M. Raphael e Annete Lamming-
Emperaire
Trabalhou com 72 das 125 grutas então
conhecidas, distribuídas essencialmente entre
Espanha e França.
conhecidas, distribuídas essencialmente entre
Espanha e França.
Considerou a existência de 3 categorias de
motivos:
motivos:
animais
figuras humanas
signos
Propôs uma sequência crono-estilística que foi
fundamental para a sua interpretação dos signos.
fundamental para a sua interpretação dos signos.
Signos dividiu-os em alongados (grupo α) e
cheios (grupo β). O estudo da sua evolução
levou-o relacionar os primeiros com o sexo
masculino e os segundos com o feminino.
cheios (grupo β). O estudo da sua evolução
levou-o relacionar os primeiros com o sexo
masculino e os segundos com o feminino.
Os animais foram divididos em quatro classes de
temas definidas pela sua importância numérica:
temas definidas pela sua importância numérica:
A: cavalo
B: Bovino (1: bisonte; 2: auroque)
C: animais complementares (1: veado; 2:
mamute; 3: cabra-montês; 4: rena)
mamute; 3: cabra-montês; 4: rena)
D: Animais perigosos (1: urso; 2: felino; 3:
rinoceronte)
rinoceronte)
Em seguida estudou a localização destes temas nas
grutas:
grutas:
Os cavalos encontram-se predominantemente nos
centros dos painéis e nas suas periferias
centros dos painéis e nas suas periferias
Os bovinos igualmente no centro dos painéis e nas
áreas de circulação
áreas de circulação
Os animais complementares registam-se sobretudo em
posição periférica dos painéis, surgindo o veado muitas
vezes como animal de inicio e fundo.
posição periférica dos painéis, surgindo o veado muitas
vezes como animal de inicio e fundo.
Os animais perigosos tendem a aparecer nos fundos.
Os signos tendem a aparecer nos divertículos (também
dos fundos) e, em menor número, nos painéis centrais.
dos fundos) e, em menor número, nos painéis centrais.
Demonstrou a existência de um par principal, quer pela sua localização, quer pela sua frequência — o par cavalo/ bovino, uma série de animais complementares e outra de raros, localizados essencialmente nos fundos (como a
maior parte dos humanos).
maior parte dos humanos).
Sobretudo demonstrou que a caverna era “um
mundo verdadeiramente organizado” (1964,
99).
mundo verdadeiramente organizado” (1964,
99).
Em seguida estudou a associação entre temas:
Signos α e β (ou “feridas”, ou mãos) tendem a aparecer acoplados
Bovinos associam-se praticamente sempre a cavalos nos espaços
centrais
centrais
Como ambos os conjuntos tendem a aparecer nos mesmos
espaços, ambos devem estar sujeitos à mesma dicotomia que é
evidenciada pelo estudo evolutivo dos signos: a dicotomia
masculino/ feminino.
espaços, ambos devem estar sujeitos à mesma dicotomia que é
evidenciada pelo estudo evolutivo dos signos: a dicotomia
masculino/ feminino.
Os animais do grupo C tendem a aparecer associados sobretudo a
cavalo.
cavalo.
Os cavalos tendem a aparecer nos setores masculinos dos objetos
(propulsores e extremidades de bastões de comando) e os bovinos
nos femininos (em torno das extremidades dos bastões de
comando, por exemplo).
(propulsores e extremidades de bastões de comando) e os bovinos
nos femininos (em torno das extremidades dos bastões de
comando, por exemplo).
Arte paleolítica refletia, assim, uma cosmogonia
assente na dicotomia masculino
assente na dicotomia masculino
(grupo A; grupo C; grupo D; grupo α)/ feminino (grupo B; grupo
β; “feridas”; mãos; a própria cavidade).
β; “feridas”; mãos; a própria cavidade).
Outros antecdentes:
A Antropologia marxista-estrutural
francesa;
francesa;
A Nova Antropologia Cultural americana;
O feminismo;
O Pós-modernismo.
Termo é cunhado por Ian Hodder (1942-) em
1985, mas é a publicação do livro Symbolic and
structural archaeology (1982), editado pelo memo
autor, que é tida como o livro seminal da
abordagem.
1985, mas é a publicação do livro Symbolic and
structural archaeology (1982), editado pelo memo
autor, que é tida como o livro seminal da
abordagem.
Críticas
A crítica à Nova Arqueologia
A visão orgânica do sistema, designadamente
relativamente à sua homeostase, o que retira
capacidade de agência às pessoas;
relativamente à sua homeostase, o que retira
capacidade de agência às pessoas;
A visão de que o mudança tem que ser
exterior ao sistema (ambiente, comércio à
distância ou pressão demográfica)
exterior ao sistema (ambiente, comércio à
distância ou pressão demográfica)
A divisão adaptação/ cultura que levou ao
depreciamento desta, tida como particularista
ou como mero reflexo de estímulos
adaptativo.a
depreciamento desta, tida como particularista
ou como mero reflexo de estímulos
adaptativo.a
Mas a dicotomia função/ cultura esquece
também que a primeira está dependente da
segunda;
também que a primeira está dependente da
segunda;
A depreciação da história;
Ênfase nas comparações transculturais;
A predictabilidade e a lógica hipotéticodedutiva;
A separação de níveis interpretativos
A crítica ao estruturalismo
A falta de uma teoria da prática — afinal,
como se concretizam as estruturas na prática?
Isto é, como são geradas, como se manifestam
socialmente?
como se concretizam as estruturas na prática?
Isto é, como são geradas, como se manifestam
socialmente?
No caso do estruturalismo também há pouco
espaço para a agência.
espaço para a agência.
A valorização das análises sincrónicas impede
o estudo adequado da mudança
o estudo adequado da mudança
A análise descontextualizada pode levar à
imposição de esquemas que não podem ser
falsificados
imposição de esquemas que não podem ser
falsificados
Em alternativa, propõe-se:
A retenção de alguns aspetos do
estruturalismo, designadamente, as relações
sintagmáticas e e associativas.
estruturalismo, designadamente, as relações
sintagmáticas e e associativas.
Contudo, os signos do sistema não devem ser
vistos como arbitrários, assumindo-se que o
seu valor pode ser intrínseco, devendo este ser
procurado no seu contexto.
vistos como arbitrários, assumindo-se que o
seu valor pode ser intrínseco, devendo este ser
procurado no seu contexto.
A análise do contexto é assim fundamental
para interpretar os materiais no âmbito do seu
processo social.
para interpretar os materiais no âmbito do seu
processo social.
A cultura não deve ser vista como mero
reflexo de padrões sociais, podendo esta ser
manipulada para os legitimar ou camuflar.
reflexo de padrões sociais, podendo esta ser
manipulada para os legitimar ou camuflar.
O simbolismo dos materiais tem um papel
ativo na própria geração das estruturas sociais,
não deixando de conter neles um potencial de
mudança.
ativo na própria geração das estruturas sociais,
não deixando de conter neles um potencial de
mudança.
A Arqueologia tem que ser histórica, na
medida em que se deve focar sobre a utilização
dos materiais nos seus contextos sociais e
estes estão sempre em tensão.
medida em que se deve focar sobre a utilização
dos materiais nos seus contextos sociais e
estes estão sempre em tensão.
Ou SEJA
Propõe-se uma troca da abordagem fóssil ao
registo arqueológico, por uma abordagem
textual na qual as teorias da prática tenham
lugar.
registo arqueológico, por uma abordagem
textual na qual as teorias da prática tenham
lugar.
Entre as abordagens textuais
pós-Saussure, destaque-se:
pós-Saussure, destaque-se:
A semiótica de Charles Sanders Pierce
(1839-1914)
(1839-1914)
Nos signos estão contidos:
• signos (o signo propriamente dito)
• objetos (a referência do signo)
• interpretante (aquilo a que o receptor
entende referir-se o signo)
• signos (o signo propriamente dito)
• objetos (a referência do signo)
• interpretante (aquilo a que o receptor
entende referir-se o signo)
A relação que os signos estabelecem com os
objetos — os modos do signo — pode também
ser de três tipos:
objetos — os modos do signo — pode também
ser de três tipos:
Símbolos (quando os signos estão ligados a um
objeto por convenção).
objeto por convenção).
Ícone (quando signo e objeto estão ligados pela
semelhança física)
semelhança física)
Índice (quando o signo e o objeto estão ligados
por uma relação espácio-temporal).
por uma relação espácio-temporal).
Um aspeto muito interessante em Pierce é que o interpretante pode dar origem a um novo signo. Por exemplo, quando alguém diz que está a ser mal interpretado, basicamente é porque o intérprete transforma o interpretante de um primeiro signo no segundo signo de um novo signo.
A hermenêutica de Paul Ricoeur (1913-2005)
Interpretação
Abre-se assim possibilidade à emergência de uma
História (ou Arqueologia) como Analogia, em
alternativa às mais tradicionais formas da História
como o Mesmo ou da História como o Outro.
História (ou Arqueologia) como Analogia, em
alternativa às mais tradicionais formas da História
como o Mesmo ou da História como o Outro.
As abordagens textuais ao estudo da cultura material são
fundamentais para os pós-processualistas
fundamentais para os pós-processualistas
Teorias da prática
Marx
Prende-se com a ideia de práxis, isto é com as
formas como as ideias e teorias são colocadas
em ação
Foca-se sobre as relações recorrentes entre
os agentes e a estrutura social.
os agentes e a estrutura social.
Foca-se sobre as relações recorrentes entre
os agentes e a estrutura social.
os agentes e a estrutura social.
Mas a relação é dialética. A estrutura enforma
o agente, mas as ações do agente também
podem alterar a estrutura.
o agente, mas as ações do agente também
podem alterar a estrutura.
Bourdieu
Proposta por Pierre Bourdieu (1930-2002) no
seu livro Esboço de uma teoria da prática (1972)
seu livro Esboço de uma teoria da prática (1972)
O seu estudo da casa dos dos Cabila é, ainda hoje,
elucidativo
elucidativo
Ela expressa determinados princípios estruturais, mas
também contribui para a manutenção dos mesmos, na
medida em que obriga os agentes a interargir entre
eles e com o mundo de determinadas maneiras.
também contribui para a manutenção dos mesmos, na
medida em que obriga os agentes a interargir entre
eles e com o mundo de determinadas maneiras.
Mas os cabila fazem-no de forma inconsciente, como a
maior parte das coisas que fazemos na vida. Ora, é
precisamente através destes processos que mais
facilmente se reproduz a cultura.
maior parte das coisas que fazemos na vida. Ora, é
precisamente através destes processos que mais
facilmente se reproduz a cultura.
Mas o potencial para a mudança está lá.
Enquanto uma forma cultural que está por trás de
determinada arbitrariedade social, de uma maneira não
discursiva mas entranhada em nós, não é reconhecida
como tal ela é designada como doxa.
determinada arbitrariedade social, de uma maneira não
discursiva mas entranhada em nós, não é reconhecida
como tal ela é designada como doxa.
Depois de reconhecida a arbitrariedade, eu posso
mantê-la (ortodoxia) ou desafiá-la (heterodoxia).
mantê-la (ortodoxia) ou desafiá-la (heterodoxia).
O conceito de habitus — aquilo que fazemos de forma
recursiva e sem nela pensarmos porque se foi
“entranhando” em nós desde que nascemos, por
intermédio da nossa vivência social.
recursiva e sem nela pensarmos porque se foi
“entranhando” em nós desde que nascemos, por
intermédio da nossa vivência social.
Muito importante,
este habitus, embora contribuindo para a reprodução
social, também está aberto ao improviso e dependente
do contexto.
este habitus, embora contribuindo para a reprodução
social, também está aberto ao improviso e dependente
do contexto.
A teoria da
estruturação
estruturação
Proposta por Antony Giddens (1938-),
designadmente no The constitution of society: Outline
of a theory of structuration (1984)
designadmente no The constitution of society: Outline
of a theory of structuration (1984)
Procurou estudar a forma como as práticas sociais se
reproduzem no espaço e no tempo e se vão tornando
progressivamente sistemáticas.
reproduzem no espaço e no tempo e se vão tornando
progressivamente sistemáticas.
A maior parte do que fazemos para reproduzir a
estrutura social está para lá da linguagem.
estrutura social está para lá da linguagem.
O conceito de agência para Giddens: “Agency concerns
events of which an individual is the perpetrator, in the sense
that the individual could, at any phase in a given sequence
of conduct, have acted differently” (1984, 5).
events of which an individual is the perpetrator, in the sense
that the individual could, at any phase in a given sequence
of conduct, have acted differently” (1984, 5).
A estruturação refere-se precisamente ao processo
através do qual as práticas se introduzem no
quotidiano
através do qual as práticas se introduzem no
quotidiano
Esta acontece sobretudo ao nível da consciência
prática, que se encontra entre a consciência discursiva
e motivações inconscientes.
prática, que se encontra entre a consciência discursiva
e motivações inconscientes.
A fenomenologia
Edmund Husserl (1859-1938)
Criou a fenomenologia, um campo do saber da filosofia
que pretende estudar a forma como os fenómenos se
revelam na consciência, com o intuito de procurar
identificar a essência destes, condição última de uma
ciência rigorosa e objetiva.
que pretende estudar a forma como os fenómenos se
revelam na consciência, com o intuito de procurar
identificar a essência destes, condição última de uma
ciência rigorosa e objetiva.
Acabou por não se afastar do polo da consciência.
Quem acabou por aprofundar mais o estudo do
processo de revelação foi M. Heidegger.
processo de revelação foi M. Heidegger.
Martin Heiddeger (1889-1976)
Para Heidegger, uma das características do Ser-aqui
(Dasein) é a sua mundanidade, ou seja o facto deste se
encontrar sempre num mundo
(Dasein) é a sua mundanidade, ou seja o facto deste se
encontrar sempre num mundo
Este mundo deve ser encarado como um plexo de
relações significativas, como um sistema de relações.
relações significativas, como um sistema de relações.
O mundo torna-se inteligível por que imbuído de
significados e porque existe uma linguagem que permite
a sua assimilação
significados e porque existe uma linguagem que permite
a sua assimilação
Como Ser-no-mundo, não existo fora dele, nem ele para
além de mim. A distinção entre sujeito e objeto dilui-se
além de mim. A distinção entre sujeito e objeto dilui-se
A maior parte das coisas do mundo revelam-se-me de
forma inconsciente, porque estão à-mão.
forma inconsciente, porque estão à-mão.
A coisa está-aí quando tomo consciência dela como
algo isolada do plexo de relações onde se integra.
algo isolada do plexo de relações onde se integra.
Se usar um martelo, eu vou assumir que vou martelar qualquer coisa, não pensando bem no martelo em quanto o uso mas sim no que estou a martelar e no seu resultado
“O martelo só se revela no ato de martelar”
Maurice Merleau-Ponty (1908-1961)
Entre a consciência e o mundo encontra-se o corpo.
É através das coisas do mundo que eu ganho
consciência do meu próprio corpo.
consciência do meu próprio corpo.
As sensações não correspondem à mera ação dos
sentidos mas devem ser entendida como resultantes do
nosso estar no mundo.
sentidos mas devem ser entendida como resultantes do
nosso estar no mundo.
O PÓS-COLONIALISMO
Referem-se não às práticas arqueológicas
feitas após o colonialismo mas às análises
críticas feitas sobre os preconceitos que nos
ficaram do colonialismo.
feitas após o colonialismo mas às análises
críticas feitas sobre os preconceitos que nos
ficaram do colonialismo.
Na sua origem está a crítica literária póscolonial
Destaque-se a influência de:
Edward W. Said (1935-2003), sobretudo
através do trabalho Orientalism (1978)
através do trabalho Orientalism (1978)
Aí, o autor discute a forma como o Ocidente
essencializa os povos subordinados, neste
caso do Médio Oriente.
essencializa os povos subordinados, neste
caso do Médio Oriente.
Gayatri Chakravorty Spivak (1942-), com o livro
In other words: Essays in cultural politics (1987)
In other words: Essays in cultural politics (1987)
Na qual a autora promove a utilização do
método desconstrutivista de Derrida para
expor os preconceitos ocidentais nas suas
obras (literárias).
método desconstrutivista de Derrida para
expor os preconceitos ocidentais nas suas
obras (literárias).
Homi K Bhabha (1949- )
em particular no que toca aos conceitos de
ambivalência e hibridação cultural.
ambivalência e hibridação cultural.
Destaque-se Chris Gosden
que primeiro teorizou a abordagem,
designadamente no artigo “Postcolonial
Archaeology. Issues of culture, identity and
knowledge” (2001)
designadamente no artigo “Postcolonial
Archaeology. Issues of culture, identity and
knowledge” (2001)
Onde, para além de aprofundar os
contributos dos autores referidos antes,
explora as relações da arqueologia com os
movimentos indigenistas.
contributos dos autores referidos antes,
explora as relações da arqueologia com os
movimentos indigenistas.
Em Portugal...
O trabalho é ainda incipiente, devendo-se
destacar os trabalhos de Rui Gomes Coelho,
por exemplo em torno dos vestígios materiais
do colonialismo em Lisboa (2019).
destacar os trabalhos de Rui Gomes Coelho,
por exemplo em torno dos vestígios materiais
do colonialismo em Lisboa (2019).
De facto, estes vestígios não se restringem aos
grandes monumentos colonialistas, mas
espalham-se, de forma mais insidiosa, por
espaços mais prosaicos do quotidiano.
grandes monumentos colonialistas, mas
espalham-se, de forma mais insidiosa, por
espaços mais prosaicos do quotidiano.
arqueologias pós-humanistas
As abordagens que descentram o ser humano do inquérito
Antecedentes
Os trabalhos de Alfred Gell (1945-1997),
designadamente no livro Art and Agency. An
Anthropological theory (1998)
designadamente no livro Art and Agency. An
Anthropological theory (1998)
A agência tem que ser reconhecida como tal;
Os objetos podem conter a agência de
pessoas;
pessoas;
Há que distinguir o agencialismo primário do
secundário.
secundário.
As ideias fundamentais são as do
agencialismo relacional e da
personalidade distribuída.
agencialismo relacional e da
personalidade distribuída.
A biografia das coisas, proposta por Arjun
Appadurai e Igor Kopitoff.
Appadurai e Igor Kopitoff.
Para Rosemary Joyce e Susan Gillespie, mais
que a biografias, devemos focar-nos nos
itinerários das coisas e nas relações que estas
foram estabelecendo ao longo do tempo.
que a biografias, devemos focar-nos nos
itinerários das coisas e nas relações que estas
foram estabelecendo ao longo do tempo.
Os trabalhos de Bruno Latour (1947-2022)
Embora tenhamos contruído, ao longo dos últimos
200 anos uma ontologia alicerçada em dualidades
várias, na prática nunca as conseguimos aplicar.
Logo, nunca fomos modernos.
200 anos uma ontologia alicerçada em dualidades
várias, na prática nunca as conseguimos aplicar.
Logo, nunca fomos modernos.
A sociedade deve ser pensada em termos de redes
que relacionam humanos e não-humanos. Estes
devem ter o mesmo peso ontológico que aqueles.
A agência não se restringe aos humanos. Todos são
actantes mo quadro da Teoria Ator-Rede.
que relacionam humanos e não-humanos. Estes
devem ter o mesmo peso ontológico que aqueles.
A agência não se restringe aos humanos. Todos são
actantes mo quadro da Teoria Ator-Rede.
É, por isso que Latour propõe a ideia de uma
Antropologia simétrica — na qual humanos e
não-humanos têm o mesmo peso.
Antropologia simétrica — na qual humanos e
não-humanos têm o mesmo peso.
daqui vem a Arqueologia
simétrica
simétrica
Que defende que a agência não se restringe
aos humanos, mas está presente nos objetos
aos humanos, mas está presente nos objetos
É assim necessário olhar para toda a rede
onde se integra o objeto em estudo e
perceber qual o papel de todos os actantes
envolvidos, sem privilegiar os humanos.
onde se integra o objeto em estudo e
perceber qual o papel de todos os actantes
envolvidos, sem privilegiar os humanos.
segunda vaga da Arqueologia
simétrica
simétrica
Hoje, na senda do trabalho do filósofo
Graham Harman (1968-) — que
conceptualizou o "realismo especulativo” —,
defendem a existência da essência das coisas.
Graham Harman (1968-) — que
conceptualizou o "realismo especulativo” —,
defendem a existência da essência das coisas.
Assumem uma luta contra o imperialismo
humano sobre as coisas.
humano sobre as coisas.
Não deixa de evocar um retorno ao
materialismo não dialético!
materialismo não dialético!
O Novo materialismo
Muito influenciadas pelo trabalho de Deleuze, sendo
fundamental nestas abordagens o seu conceito de
assemblage — uma dada totalidade de relações
estabelecida por várias coisas.
fundamental nestas abordagens o seu conceito de
assemblage — uma dada totalidade de relações
estabelecida por várias coisas.
Existe a diferentes escalas: uma molécula ou uma
galáxia são assemblages de diferentes proporções
galáxia são assemblages de diferentes proporções
Elas estão sempre em deviniência. As relações que
os seus elementos estabelecem entre si apresentam
um caráter rizomático.
os seus elementos estabelecem entre si apresentam
um caráter rizomático.
A influência na Antropologia
Alguns trabalhos de Tim Ingold (1948-),
designadamente o livro Lines (2007) ou o
artigo “Materials against materiality” (2007)
designadamente o livro Lines (2007) ou o
artigo “Materials against materiality” (2007)
Cada coisa corresponde a uma dada
“meshwork”, em permanente deviniência.
“meshwork”, em permanente deviniência.
Algo “feito” é apenas um momento dessa
deviniência, onde a vontade do fazedor é
apenas um dos elementos da “meshwork”
correspondente.
deviniência, onde a vontade do fazedor é
apenas um dos elementos da “meshwork”
correspondente.
Devemos colocar de parte o conceito
hilomórfico do fazer, isto é, aplicação de uma
forma ideal a uma dada porção de matéria.
hilomórfico do fazer, isto é, aplicação de uma
forma ideal a uma dada porção de matéria.
E na Arqueologia
Não terá a matéria algo a
dizer?
Não terá a matéria algo a
dizer?
Na arte rupestre, designadamente paleolítica,
isso é evidente, mas também na arquitetura e
na restante cultura material.
isso é evidente, mas também na arquitetura e
na restante cultura material.
E por isso é fundamental conhecer bem os
materiais, designadamente as suas
propriedades físicas.
materiais, designadamente as suas
propriedades físicas.
Para os praticantes destas abordagens, estas
transcendem as escolas processualista e pósprocessualista.
transcendem as escolas processualista e pósprocessualista.
Como se distinguem do pós-processualismo? Afinal
não continuam atrás do contexto?
não continuam atrás do contexto?
O significado já não é prioridade.
As propriedades dos materiais são tidos como actantes tão importantes como a
criatividade do fazedor.
criatividade do fazedor.
Advogam a criação de uma ontologia rasa, de forma a acabar com todos os dualismos.
Ou seja
Tendem para uma (putativa) neutralidade moral e
política.
política.
A viragem ontológica
O que é a “ontologia”?
Acepção filosófica: um campo da filosofia que pretende gerar um
modelo único sobre o funcionamento do mundo.
modelo único sobre o funcionamento do mundo.
Donna Haraway (1944-)
The companion species manifesto:
Dogs, people and significant otherness (2003)
Dogs, people and significant otherness (2003)
Não devemos pensar nas outras espécies como
dominadas ou de companhia, mas antes como
“espécies acompanhantes” com quem os seres
humanos vão estabelecendo diferentes relações ao
longo da História
dominadas ou de companhia, mas antes como
“espécies acompanhantes” com quem os seres
humanos vão estabelecendo diferentes relações ao
longo da História
Segundo a autora, a distinção que fazemos entre
humanos e não-humanos alicerça-se no mesmo tipo
de raciocínios que essencializam determinadas formas
de ser humano.
humanos e não-humanos alicerça-se no mesmo tipo
de raciocínios que essencializam determinadas formas
de ser humano.
Chama a atenção para o processo de “tornando-nos
com” (becoming with), isto é para a forma como nós e
os animais não-humanos nos vamos “fazendo
com” (becoming with), isto é para a forma como nós e
os animais não-humanos nos vamos “fazendo
Acepção antropológica: refere-se às ideias de uma comunidade
sobre o tipo de coisas que existem no mundo e como se
relacionam entre elas. Mas há quem, em Antropologia, se refira às
coisas que realmente existem e como isto varia ao longo do mundo
sobre o tipo de coisas que existem no mundo e como se
relacionam entre elas. Mas há quem, em Antropologia, se refira às
coisas que realmente existem e como isto varia ao longo do mundo
Os trabalhos de Bruno Latour (1947-2022)
Embora tenhamos contruído, ao longo dos últmos
200 anos uma ontologia alicerçada em dualidades
várias, na prática nunca as conseguimos aplicar.
Logo, nunca fomos modernos.
200 anos uma ontologia alicerçada em dualidades
várias, na prática nunca as conseguimos aplicar.
Logo, nunca fomos modernos.
A sociedade deve ser pensada em termos de redes
que relacionam humanos e não-humanos. Estes
devem ter o mesmo peso ontológico que aqueles.
A agência não se restringe aos humanos. Todos são
actantes mo quadro da Teoria Ator-Rede.
que relacionam humanos e não-humanos. Estes
devem ter o mesmo peso ontológico que aqueles.
A agência não se restringe aos humanos. Todos são
actantes mo quadro da Teoria Ator-Rede.
É, por isso que Latour propõe a ideia de uma
Antropologia simétrica — na qual humanos e
não-humanos têm o mesmo peso.
Antropologia simétrica — na qual humanos e
não-humanos têm o mesmo peso.
Na Antropologia
Alfred Irving Hallowell
(1892-1974)
(1892-1974)
o artigo “Ojibwa ontology,
behavior and world view” (1960)
behavior and world view” (1960)
O autor chama a atenção para a existência, em muitas
culturas, de “other than human persons”, pese o facto
destas não serem tidas em conta nos trabalhos
antropológicos.
culturas, de “other than human persons”, pese o facto
destas não serem tidas em conta nos trabalhos
antropológicos.
Contudo, algumas destas pessoas não-humanas podem
fazer parte das relações sociais das sociedades
estudadas (ainda que em sonhos). Ou seja, a sociedade
estende-se para além dos humanos, sendo este o caso
dos Ojibwa.
fazer parte das relações sociais das sociedades
estudadas (ainda que em sonhos). Ou seja, a sociedade
estende-se para além dos humanos, sendo este o caso
dos Ojibwa.
A metamorfose é um dos atributos das pessoas
(humanas ou outras que não humanas), a par da
capacidade de compreensão mútua
(humanas ou outras que não humanas), a par da
capacidade de compreensão mútua
Nurit Bird-David (1951-)
artigo “The giving environment:
Another perspective on the economic system of
gatherer-hunters” (1990), que resulta do seu
trabalho entre os Nayaka (Sul da Índia).
Another perspective on the economic system of
gatherer-hunters” (1990), que resulta do seu
trabalho entre os Nayaka (Sul da Índia).
Segundo a autora, esta e outras comunidades de
caçadores-recoletores distinguem-se das comunidades
produtoras essencialmente pela forma como
percebem o ambiente e se percebem a eles próprios,
assim como com as formas específicas como se
relacionam, quer com o ambiente, quer com os
restantes humanos.
caçadores-recoletores distinguem-se das comunidades
produtoras essencialmente pela forma como
percebem o ambiente e se percebem a eles próprios,
assim como com as formas específicas como se
relacionam, quer com o ambiente, quer com os
restantes humanos.
Será uma metáfora? A própria autora admite, que os Nayaka
podem não ter noção disso.
podem não ter noção disso.
Ao contrário dos vizinhos produtores, as comunidades que a
autora analisa, sentem-se a viver na floresta. Tratam os
espíritos dos seus elementos (rios, montanhas, etc), da mesma
forma que os espíritos dos antepassados. Ambos são
provedores e podem castigar.
autora analisa, sentem-se a viver na floresta. Tratam os
espíritos dos seus elementos (rios, montanhas, etc), da mesma
forma que os espíritos dos antepassados. Ambos são
provedores e podem castigar.
A floresta é um pai e todos os Nayaka são irmãos.
As ideias que faziam do seu ambiente (a floresta)
giravam em tono do que a autora considera uma
metáfora: “forest is a parent”.
giravam em tono do que a autora considera uma
metáfora: “forest is a parent”.
Por exemplo, e sobretudo o artigo “Animism”
No qual a a autora revê o conceito, passando a encará-lo
como um tipo de epistemologia relacional.
como um tipo de epistemologia relacional.
Por exemplo, os devaru, que a autora conceptualiza como
“superpessoas” não se relacionam com as pessoas apenas
durante o pandalu — uma "grande visita animista” (Bird-
David, 2020) — durante o qual o bando local convive e
reforça laços com os espíritos dos antepassados e da
floresta.
“superpessoas” não se relacionam com as pessoas apenas
durante o pandalu — uma "grande visita animista” (Bird-
David, 2020) — durante o qual o bando local convive e
reforça laços com os espíritos dos antepassados e da
floresta.
Qualquer alteração no ambiente pode ser
evidência da sua presença entre os eventos anuais. Isto
exige uma extrema atenção ao que se passa em volta de
forma a perceber quando algo muda relativamente ao que
é habitual, exige uma permanente “conversa” com ele.
evidência da sua presença entre os eventos anuais. Isto
exige uma extrema atenção ao que se passa em volta de
forma a perceber quando algo muda relativamente ao que
é habitual, exige uma permanente “conversa” com ele.
A Arqueologia do género
pioneiras
Janet D. Spector (1944-2011)
Joan Gero (1944-2016)
Margaret Conkey (1943-)
Destaque-se o artigo de Conkey & Spector
(1984), “Archaeology and the study of
gender” ou o livro editado por Gero e
Conkey, Engendering Archaeology (1991)
(1984), “Archaeology and the study of
gender” ou o livro editado por Gero e
Conkey, Engendering Archaeology (1991)
Nestes primeiros trabalhos,
as análises centravam-se:
as análises centravam-se:
Na crítica da linguagem utilizada, e das
questões que se colocavam, consideradas
profundamente androcêntricas.
questões que se colocavam, consideradas
profundamente androcêntricas.
A maior parte dos projetos de campo era
ganho e liderado por homens.
ganho e liderado por homens.
A maior parte do financiamento ia para
homens.
homens.
As mulheres dedicavam-se sobretudo a
estudos de cerâmicas e outros materiais. Joan
Gero referia-se a uma “Woman at home
ideology”
estudos de cerâmicas e outros materiais. Joan
Gero referia-se a uma “Woman at home
ideology”
Nas representações de homens e
mulheres na Pré-história:
mulheres na Pré-história:
O homem responsabilizava-se
pelas tarefas mais empolgantes e a
mulher as mais discretas.
pelas tarefas mais empolgantes e a
mulher as mais discretas.
O homem era o motor da história
e a mulher mero pano de fundo.
e a mulher mero pano de fundo.
Como o número de sepulturas ricas era
maior entre mulheres que homens, isto foi
entendido como evidência de poliginia.
maior entre mulheres que homens, isto foi
entendido como evidência de poliginia.
Como também havia sepulturas ricas de
meninas, isto foi entendido como evidência da
existência de casamentos arranjados.
meninas, isto foi entendido como evidência da
existência de casamentos arranjados.
Há uma universalização dos papéis
atuais dos géneros
atuais dos géneros
Exemplos:
A riqueza em materiais das sepulturas
femininas da necrópole da Idade do Bronze
de Branč (Eslováquia) foi interpretada como
ofertas de maridos e pais ricos (Shennan,
1975).
femininas da necrópole da Idade do Bronze
de Branč (Eslováquia) foi interpretada como
ofertas de maridos e pais ricos (Shennan,
1975).
Em 1872 Émile Rivière descobre, na gruta de
Cavillon, um esqueleto, caraterizado pela
robustez dos ossos. Sobre e à volta da cabeça
observa-se uma série de conchas e dentes de
veado perfurados, encontrando-se o corpo
coberto de ocre.
Cavillon, um esqueleto, caraterizado pela
robustez dos ossos. Sobre e à volta da cabeça
observa-se uma série de conchas e dentes de
veado perfurados, encontrando-se o corpo
coberto de ocre.
Foi interpretado como um chefe de clã.
Hoje sabe-se, graças aos estudos de Marie
Antoinette de Lumley, que o esqueleto era o
de uma mulher com cerca de 35 anos.
Antoinette de Lumley, que o esqueleto era o
de uma mulher com cerca de 35 anos.
O trabalho de Sharisse e
Geoffrey McCafferty (1994)
Geoffrey McCafferty (1994)
Na sepultura 7 de Monte Albán do sítio mixteca (1400-1521)
destaca-se pela riqueza.
destaca-se pela riqueza.
O depósito parece centrar-se sobre o
indivíduo mumificado A, que, dada a riqueza,
foi sempre interpretado como masculino.
indivíduo mumificado A, que, dada a riqueza,
foi sempre interpretado como masculino.
No entanto, a ele associam-se muitos objetos
de fiação que naquela cultura, é uma atividade
muita ligada às mulheres, como se documenta,
designadamente na iconografia da época.
de fiação que naquela cultura, é uma atividade
muita ligada às mulheres, como se documenta,
designadamente na iconografia da época.
Mas
Não será apenas um homem com objetos
atribuídos a uma mulher?
atribuídos a uma mulher?
Será a divisão binária dos géneros universal?
O género constrói-se
A influência dos trabalhos de Judith Butler
(1956-).
(1956-).
A heteronormatividade como fenómeno
historicamente situado. Assume que a vasta
maioria das pessoas:
historicamente situado. Assume que a vasta
maioria das pessoas:
Pertence a um de dois sexos
É heterossexual
Resulta de relações de poder particulares que
se reproduzem no mundo moderno, via o que
chama de performatividade — “aquilo que
produz o que nomeia”.
se reproduzem no mundo moderno, via o que
chama de performatividade — “aquilo que
produz o que nomeia”.
Os ideiais regulatórios
O exemplo do artigo “Frameworks for an
archaeology of the body” (1993)
archaeology of the body” (1993)
Serão “homens” todos os antropomorfos da
arte rupestre da Idade do Bronze sueca?
arte rupestre da Idade do Bronze sueca?
Ou o que se extrai da arte rupestre é que o
género só é atribuído por intermédio de ritos
iniciáticos?
género só é atribuído por intermédio de ritos
iniciáticos?
É, por exemplo, o que se passa entre os
Sambia da Nova Guiné.
Sambia da Nova Guiné.
Mariyn Strathern (1941-) no livro The gender
of the gift (1988).
of the gift (1988).
Mesmo a universalidade de um conceito tão
“evidente” como indivíduo é discutível.
Uma boa demonstração são os divíduos da
Melanésia.
“evidente” como indivíduo é discutível.
Uma boa demonstração são os divíduos da
Melanésia.
Dentro desta perspetiva, as pessoas emergem
de relações e não de essências apriorísticas
que entram em relações.
de relações e não de essências apriorísticas
que entram em relações.
E a personalidade não é apanágio dos
humanos.
humanos.
Em Portugal, estas abordagens chegaram tarde
Mas as abordagens são as mesmas
A representação nas narrativas arqueológicas
e nos manuais escolares (e.g. Dinis, 2006; Vale,
2016)
e nos manuais escolares (e.g. Dinis, 2006; Vale,
2016)
A performatividade (e.g. Gomes, 2015; Vale,
2016)
2016)
A construção dos indivíduos (e.g. Valera, 2000;
Santos, 2007)
Santos, 2007)
História
Cultura Material:
Glossopetrae: Pontas de seta e dentes fossilizadas que eram encontrados durante períodos de tempestades e trovoadas, Assumidos na altura como pedras caídas do céu
Estados Renascentistas Italianos começam a procurar as suas origens, começando por textos e seguindo por outras fontes, distinguem-se: Cyriacus de Ancona, e Leon Battista Alberti
Expansão urbana leva a trabalhos de “protoarqueologia”
Em finais do século XV, papas como Paulo II ou Alexandre VI, entre outros dignitários
religiosos, já colecionavam e exibiam achados arqueológicos e promoviam “escavações”.
religiosos, já colecionavam e exibiam achados arqueológicos e promoviam “escavações”.
Disseminação pela Europa:
Interesse pelas antiguidades leva à “exportação” de
património de Itália e da Grécia e à investigação local de
monumentos, inscrições e obras de arte.
património de Itália e da Grécia e à investigação local de
monumentos, inscrições e obras de arte.
termo “antiquário” já designa um cargo
oficial ou um amador estudioso de coisas antigas.
A emergência dos estados-nação do norte ecentro da Europa fazem disseminar igualmente
os estudos sobre realidades não-clássicas.
os estudos sobre realidades não-clássicas.
Criação de La Petite Académie (1663)
futura Académie des inscriptions et belles lettres,
por Jean-Baptiste Colbert
futura Académie des inscriptions et belles lettres,
por Jean-Baptiste Colbert
Como explicar a existência de sociedades que
contrariavam a narrativa biblica?
contrariavam a narrativa biblica?
Afastamento do Médio Oriente terá ocasionado
degeneração moral e tecnológica.
degeneração moral e tecnológica.
Terá sido fundamental, para interpretar corretamente as “pedras do raio” e até fazer inferências sobre o Passado.“
Contributores teóricos:
René Descartes(1596-1650) O racionalismo
A res cogitans e a res extensa
A res cogitans e a res extensa
Francis Bacon(1561-1626): O empiricismo
O método indutivo
O método indutivo
Thomas Hobbes (1588-1679): Escrita do Leviathan
John Locke(1632-1704): Empirismo
Isaac Newton (1689-1727): lei da gravitação universal
Jacob Spon (1647-1685), utiliza pela primeira
vez o termo “arqueologia” no sentido atual.
vez o termo “arqueologia” no sentido atual.
Com Ezechiel Spanheim (1629-1710),
considera as inscrições como algo mais fiável que
os textos, múltiplas vezes recopiados.
considera as inscrições como algo mais fiável que
os textos, múltiplas vezes recopiados.
Francesco Bianchini (1662-1729), especifica
as formas como as imagens antigas fornecem
informação diferente e complementar da
presente nos textos.
as formas como as imagens antigas fornecem
informação diferente e complementar da
presente nos textos.
Criação da Royal Society of London, por Carlos
II (1660)
II (1660)
Trabalhos da RS referem ainda ossos encontrados emsítios arqueológicos, problematizam o fabrico de objetosou a forma como se moveram as grandes pedras dos monumentos em estudo.
William Stukeley (1687-1756), tipologia de
monumentos, cronologia relativa com base na relação
entre monumentos e estruturas romanas, etc.
monumentos, cronologia relativa com base na relação
entre monumentos e estruturas romanas, etc.
John Aubrey (1627-1697): os Monumenta Britannica; o
método das antiguidades comparadas;
método das antiguidades comparadas;
1734: Nicolas Mahudel recupera a ideia de três
idades sucessivas: pedra, bronze e ferro.
idades sucessivas: pedra, bronze e ferro.
1758: Antoine-Yves Goguet reafirma-o, dando
como exemplo da primeira Idade a vida dos
“selvagens” do seu tempo.
Volta a Lucrécio
como exemplo da primeira Idade a vida dos
“selvagens” do seu tempo.
Volta a Lucrécio
Niels Steensen
sequência de deposição das camadas
a distinção entre
rochas magmáticas e sedimentares
rochas magmáticas e sedimentares
a distinção entre
terrenos anteriores à vida (sem fósseis) e os que
continham fósseis.
terrenos anteriores à vida (sem fósseis) e os que
continham fósseis.
James Hutton (1726-1797)
•Estratificação das rochas;
•Princípio do uniformitarismo;
•Princípio do uniformitarismo;
William “Strata” Smith (1769-1839) Relação entre camadas e fósseis de conchas.
Georges Cuvier (1769-1832): O catastrofismo e a visão fixista do mundo natural.
•Aprofundamento da relação entre fósseis e estratos;
•O que se aplica às conchas, aplica-se também aos
mamíferos;
•Com o tempo, aumentam as diferenças relativas à fauna
atual.
•O que se aplica às conchas, aplica-se também aos
mamíferos;
•Com o tempo, aumentam as diferenças relativas à fauna
atual.
Jean-Baptiste de Lamarck
(1744-1829)
(1744-1829)
Fundador da Biologia e proponente de uma primeira teoria da Evolução — o transformismo: Fundada sobre os princípios da complexificação e da diversificação
A polémica “transformismo/
fixismo” reflete-se nos estudos
arqueológicos e etnológicos
fixismo” reflete-se nos estudos
arqueológicos e etnológicos
Não poderia a pedra ter substituído o metal em
sítios onde este não existia, tendo-se entretanto
perdido a tecnologia? (Mercati)
sítios onde este não existia, tendo-se entretanto
perdido a tecnologia? (Mercati)
Evolução em tecnologia metalúrgica europa - médio oriente
O Iluminismo
Crença na razão, no progresso e visão mecaniscista dos processo sociais.
Onde a burguesia é dominante:
analisa o significado da mudança.
Onde a burguesia não é dominante:
a ideia de progresso legitima a mudança.
a ideia de progresso legitima a mudança.
A ideia do progresso como resultante da ação da
razão levou a que se considerasse que as diferentes
sociedade conhecidas se distribuiam por diversos
estádios desse progresso.
razão levou a que se considerasse que as diferentes
sociedade conhecidas se distribuiam por diversos
estádios desse progresso.
1734: Nicolas Mahudel recupera a ideia de três
idades sucessivas: pedra, bronze e ferro.
1758: Antoine-Yves Goguet reafirma-o, dando
como exemplo da primeira Idade a vida dos
“selvagens” do seu tempo.
Volta a Lucrécio
idades sucessivas: pedra, bronze e ferro.
1758: Antoine-Yves Goguet reafirma-o, dando
como exemplo da primeira Idade a vida dos
“selvagens” do seu tempo.
Volta a Lucrécio
Presupostos:
• Unidade psíquica da humanidade, logo o
progresso é acessível a todos;
• O progresso cultural é uma caraterística
intrínseca da humanidade, designadamente o
seu controlo sobre a natureza;
• O progresso afeta todos os aspetos da vida
humana, verificando-se que mudanças num
deles afetam os restantes;
• O progesso melhora a natureza humana;
• O progresso resulta da ação da razão
humana para melhorar a sua condição.
progresso é acessível a todos;
• O progresso cultural é uma caraterística
intrínseca da humanidade, designadamente o
seu controlo sobre a natureza;
• O progresso afeta todos os aspetos da vida
humana, verificando-se que mudanças num
deles afetam os restantes;
• O progesso melhora a natureza humana;
• O progresso resulta da ação da razão
humana para melhorar a sua condição.
Antiquarismo:
Se o antiquarismo não influenciou o Iluminismo, o
Iluminismo abriu as portas ao Antiquarismo,
oferecendo-lhe a ideia do progresso
Iluminismo abriu as portas ao Antiquarismo,
oferecendo-lhe a ideia do progresso
Uma reforma em 1701, transforma a La Petite Académie em
Académie des inscriptions et belles lettres com objetivo: “l’avancement et la diffusion des
connaissances dans les domaines de l’Antiquité
classique, du Moyen Âge, prolongé désormais jusqu’à
l’âge classique, et de l’ensemble des civilisations de
l’Orient proche et lointain”.
Académie des inscriptions et belles lettres com objetivo: “l’avancement et la diffusion des
connaissances dans les domaines de l’Antiquité
classique, du Moyen Âge, prolongé désormais jusqu’à
l’âge classique, et de l’ensemble des civilisations de
l’Orient proche et lointain”.
Em Portugal:
1720:
Criação da Academia Real da História
Portuguesa
Criação da Academia Real da História
Portuguesa
Tem como missão escrever “a história
Ecclesiástica destes Reynos, e depois tudo o
que pertencer a História delles, e de suas
conquistas”
Ecclesiástica destes Reynos, e depois tudo o
que pertencer a História delles, e de suas
conquistas”
1721:
Decreto de D. João V de proteção dos vestígios
arqueológicos
Decreto de D. João V de proteção dos vestígios
arqueológicos
1721:
Inquérito paroquial
Inquérito paroquial
1747-1751:
Diccionário Geográfico do Padre Luís Cardoso
Diccionário Geográfico do Padre Luís Cardoso
1758:
Novo inquérito (as memórias paroquiais)
Novo inquérito (as memórias paroquiais)
Ao nível da produção científica, destaque-se:
30 de julho de 1733:
Conferência de Martinho de Mendonça e Pina
e de Proença Homem (1693-1743) sobre
monumentos megalíticos.
Conferência de Martinho de Mendonça e Pina
e de Proença Homem (1693-1743) sobre
monumentos megalíticos.
1734-1735:
Publicação das Memórias para a História
Eclesiástica do Arcebispado de Braga de Jerónimo
Contador de Argote
Publicação das Memórias para a História
Eclesiástica do Arcebispado de Braga de Jerónimo
Contador de Argote
A ação de Frei Manuel do Cenáculo (1724-1814)
Primeiro Museu público em Portugal — Museu
Cenáculo Pacense (1791), com coleções de
Antiguidades, Etnografia e História Natural.
Cenáculo Pacense (1791), com coleções de
Antiguidades, Etnografia e História Natural.
As primeiras escavações em Tróia, entre outras
que mandou realizar em diversos lugares.
que mandou realizar em diversos lugares.
Os primeiros registos gráficos, incluindo
plantas de estruturas e estelas.
plantas de estruturas e estelas.
1857: Criação da Comissão dos
trabalhos Geológicos do Reino
trabalhos Geológicos do Reino
Dirigida por Carlos Ribeiro (1813-1882) e
Francisco António Pereira da Costa (1809-1889)
Francisco António Pereira da Costa (1809-1889)
E tendo como adjunto Joaquim Nery Delgado
(1835-1908)
(1835-1908)
Destaque-se, em Portugal o caso de André de
Resende e e Frei Bernardo de Brito
Resende e e Frei Bernardo de Brito
O reconhecimento da arte
parietal paleolítica
parietal paleolítica
1827
Paul Tournal (1805-1872) encontra um
fragmento de haste de rena decorado com “uma
série de linhas com dobras angulosas dispostas
em forma de divisas”
fragmento de haste de rena decorado com “uma
série de linhas com dobras angulosas dispostas
em forma de divisas”
Ponta de Haste do ker de massat decorada
Édouard Lartet (1801-1871) admite que estas peças teriam sido produzidas pelos caçadores-pescadores referidos por Nilsson e que estes seriam coevos de animais extintos.
Refletem muito da ideologia da época e das ideias preconcebidas quer da “vida campestre”, quer do “Passado mais remoto” como lugares de idílio, não deixando de seraltamente relevante a comparação dos caçadores e pescadores pré-históricos com os pastores do Oberland suíço.
Evidência do progresso humano e civilizacional de que a burguesia se sentia
então a vanguarda, não seria de espantar que estas e outras peças que entretanto foram
sendo exumadas em diversos sítios, fossem expostas nessa glorificação do “Progresso”
que foi a Exposition Universelle d’Art et d’Industrie, inaugurada em Paris em 1867,
tendo sido sintomaticamente exibidas na secção “História do Trabalho”.
então a vanguarda, não seria de espantar que estas e outras peças que entretanto foram
sendo exumadas em diversos sítios, fossem expostas nessa glorificação do “Progresso”
que foi a Exposition Universelle d’Art et d’Industrie, inaugurada em Paris em 1867,
tendo sido sintomaticamente exibidas na secção “História do Trabalho”.
Édouard Harlé (1850-1922)
• Se há pinturas, onde está o fumo?
• Algumas pinturas tinham incrustações, mas outras não.
• A tinta saía facilmente com o dedo.
• “Obras de mestre” encontravam-se a par de outras menores.
• Os bovinos deveriam ter todas as caraterísticas dos
auroques, mas apenas tinham a bossa.
• A escamação das paredes não era compatível com a
conservação verificada de alguns motivos feitos sobre a “rocha
viva”.
"La grotte d'Altamira, près de Santander (Espagne)",
Matériaux pour l'Histoire primitive et naturelle de l'Homme, 16,
1881.
• Algumas pinturas tinham incrustações, mas outras não.
• A tinta saía facilmente com o dedo.
• “Obras de mestre” encontravam-se a par de outras menores.
• Os bovinos deveriam ter todas as caraterísticas dos
auroques, mas apenas tinham a bossa.
• A escamação das paredes não era compatível com a
conservação verificada de alguns motivos feitos sobre a “rocha
viva”.
"La grotte d'Altamira, près de Santander (Espagne)",
Matériaux pour l'Histoire primitive et naturelle de l'Homme, 16,
1881.
Porque foi complicado o
reconhecimento da arte parietal
paleolítica?
reconhecimento da arte parietal
paleolítica?
• Ao contrário da arte móvel, paralelizável com o artesanato, a
pintura parietal relacionava-se mais facilmente com as belas artes.
• Povos tão “primitivos” não poderiam produzir imagens desta
qualidade.
• A diferença entre o capital simbólico dos lados francês e
espanhol e o receio de que fosse uma armadilha dos
“criacionistas espanhóis para expor os evolucionistas
franceses.
pintura parietal relacionava-se mais facilmente com as belas artes.
• Povos tão “primitivos” não poderiam produzir imagens desta
qualidade.
• A diferença entre o capital simbólico dos lados francês e
espanhol e o receio de que fosse uma armadilha dos
“criacionistas espanhóis para expor os evolucionistas
franceses.
A crise dos modelos evolucionistas, provocados,
designadamente pelas crises do capitalismo inglês de final do
século XIX e o consequente receio do “perigo operário” por
parte da pequena e média burguesia.
designadamente pelas crises do capitalismo inglês de final do
século XIX e o consequente receio do “perigo operário” por
parte da pequena e média burguesia.
A demonstração da complexidade do “pensamento
selvagem”, com os trabalhos de Durkheim, Frazer, Spencer &
Guillen, etc
selvagem”, com os trabalhos de Durkheim, Frazer, Spencer &
Guillen, etc
Escavação e Métodos de escavação:
Na Alemanha, escava-se desde finais do século
XVI. Em 1688 já existem manuais sobre como
escavar!
XVI. Em 1688 já existem manuais sobre como
escavar!
Em França, Jean-Jacob Chifflet publica
relatório modelar dos materias recolhidos na
escavação do túmulo de Quilderico I, ocorrida
em 1653.
relatório modelar dos materias recolhidos na
escavação do túmulo de Quilderico I, ocorrida
em 1653.
Olof Rudbeck (1666-1702): escava tumuli
viking em Uppsala (Suécia)
viking em Uppsala (Suécia)
Grandes Conclusões:
Antes de 1859, a Arqueologia estava bem definida como disciplina na Escandinávia, Escócia e Suiça. sendo Jean Worsaae considerado o 1º arqueoólogo profissional
• É possível estabelecer cronologias relativas com base nos achados fechados, na seriação e na estratigrafia.
• Os objetos já não são valorizados per se, mas enquanto fontes de informação.
• Os objetos já não são valorizados per se, mas enquanto fontes de informação.
As abordagens textuais ao estudo da cultura material são
fundamentais para os pós-processualistas
fundamentais para os pós-processualistas
Os padrões identificados no registo arqueológico são encarados
como decorrentes da “aplicação” prática de princípios estruturais
por parte dos humanos. Logo é fundamental ter em conta
igualmente a forma como essa “aplicação” ocorre. Para isso, o pósprocessualismo
recorre a diferentes teorias da prática.
como decorrentes da “aplicação” prática de princípios estruturais
por parte dos humanos. Logo é fundamental ter em conta
igualmente a forma como essa “aplicação” ocorre. Para isso, o pósprocessualismo
recorre a diferentes teorias da prática.
Coletar
Collect
0 Comentários
Próxima página